Noite finita

jacob galon

Dorivaldo

Olá, fiéis ghost readers! Digo fiéis porque, como mostram os números, as visitas ao blog não cessaram nem mesmo com esse meu longo período distante. De qualquer modo, estou voltando, aos poucos, devagarinho, e assim também a literatura ressurge em minhas entranhas, sutil como um vírus que se espalha pela corrente sanguínea a princípio sem deixar rastros (tudo graças à retomada da leitura de O centauro no jardim, com o qual voltei a me divertir e angustiar enquanto aguardava para ser atendido pelo médico – agruras da vida). Sem mais perder tempo, segue abaixo o miniconto recém-escrito, aviso-lhes, de qualidade duvidosa – por favor, relevem; foram meses de inércia literária afinal. Ótimo restante de semana a todos!

 

 

Dorivaldo

 

Dorivaldo, Dorivaldo. Por que andas tão exausto? Que é que tanto fazes da vida, Dorivaldo? Via-te para cá, para lá, para cá, para lá, para cá, para lá. Percorrias quilômetros, milhas, o dia todo, sem cessar, compromissos aos montes. E, contudo, fazias tão pouco. Não plantaste uma vinha, não te casaste, não edificaste um lar. Não havia tempo, não é, Dorivaldo? Sempre tão ocupado. Sempre tão cansado. Fica pra depois, dizias aos amigos que queriam ver-te. Hoje não posso; ainda tenho muito a fazer, respondias à moça cujo olhar tanto encantava. À noite, esparramando-te sobre a cama, doíam-te os ossos. Os membros pesavam, as articulações te lhe pareciam enferrujadas, gastas, velhas. Quem diria que eras ainda um mero jovenzinho recém-saído das fraldas? Agora não, Dorivaldo. Cresceste, cresceste muito. Todavia és ainda o bom e velho atarefado de sempre. Velho sim, muito velho. Passou, Dorivaldo. Aí, diante dos teus olhos, e tu não viste, ocupado que estavas com teus ocos afazeres, com teu falso repouso. Agora jazes no sofá da sala, inerte como nunca. No peito o pulmão ressona; chia. E na cabeça as vozes. Ah, as vozes… Elas ecoam. Ecoam sem parar, num turbilhão incansável, cruel. Ante o último suspiro, lembram-te que lhas entregaste a vida. Agora, Dorivaldo? Agora te resta o silêncio sepulcral do descanso perene. Nada mais.

 

Nasci no espaço

Olá, ghost readers! Começo o ano em férias, mas na ativa, em meio a leituras (algumas das quais estacionadas desde as férias do ano passado) e à retomada de um projeto que pretendo finalizar ainda este ano, se tudo correr bem. Para este primeiro post de 2013, uma relíquia pessoal. Eu estava há alguns dias vasculhando alguns dos meus cadernos velhos (que faço questão de guardar, apesar dos protestos de minha mãe) quando encontrei um texto, sem título, escrito a lápis em um caderno usado na 7ª série, datado de 1999. Penei, confesso, para compreender minha própria letra, ou meus próprios hieróglifos, como alguns gostam de dizer, mas após quatro ou cinco tentativas consegui finalmente decifrar o texto. Não me recordo dele, embora por certo deva se tratar de um esboço, um rascunho feito para ser passado a limpo e entregue como atividade de produção de texto (e a julgar pelo conteúdo, o tema era livre, o que eu adorava). O rascunho acaba antes de o texto ser finalizado, algo típico deste que vos escreve; nunca, desde que me recordo, concluí um texto no rascunho (nem mesmo no vestibular). A conclusão acabava sempre sendo escrita diretamente na versão final, o que, lógico, nem sempre é bom.

Enfim, gastei alguns minutos para digitar o texto (e futuramente, aliás, devo digitalizá-lo, ainda que eu deva ser o único a compreender os garranchos), mantendo tudo como no original, inclusive os pequenos erros de acentuação e pontuação (apenas o título improvisado foi adicionado por mim agora). Apesar dos pesares, achei o conteúdo razoável. E, quem sabe, até poderia dar uma boa ficção científica. Com vocês, Jacob Galon aos 13 anos de idade. Uma ótima semana a todos!

 

“Nasci no espaço”

Meu berço

Meu berço

Nasci no espaço, em uma nave e tive de escolher o meu planeta natal. Existiam duas opções: o planeta Proton, da galáxia de Perseus e o planeta Zermacron, da galáxia de Orfeus, ambos em galáxias perigosas.

Escolhi á Zermacron, me atraiu mais. Lá, resolvi melhorar os conhecimentos que estão dentro de mim. E um homem me disse para escolher entre me arriscar em um passado desconhecido ou voltar 125 milhões de anos atrás, até a era dos dinossauros. Escolhi o último. De repente, estava lá, num lugar sem nenhuma criatura humana.

Levei um susto quando um dinossauro (Protocetatops) conversou comigo. Ele me disse que estava havendo uma briga entre o Tiranossauro e o Tarbossauro. O Tiranossauro vence, arrancando a cabeça do inimigo. Ele me vê, e sai correndo atrás de mim.

Eu rapidamente, giro o botão de “Apagar”, e de repente o veículo espacial se dirige á Pronon. Meus pais me informam que Pronon é o planeta de meu pai. Eu dirigia o meu veículo quando de repente, aparece uma nebulosa que não deveria estar no meu curso. Mas não há tempo de desviar. E o veículo começa á entrar em pane, detectando radioatividade. Uma forte chuva de meteoritos me atinge. O veículo começa á sacudir. Eu tenho que pedir ajuda pelo rádio.

Eu estou com muito medo, mas mando a mensagem. Eu uso o motor de emergência para seguir na direção de uma fraca onda de rádio.

Eu sou puxado por uma gigantesca estação móvel de pesquisas, R5-3 UGB. Todos da Junta Governativa do Universo me recebem bem. Eles me informam que há uma estranha doença em Axle, que eles não têm cura. Eu resolvo ir até esse planeta. A estação entra na atmosfera.

Há poucos seres vivos no planeta, e os que estão vivos estão muito fracos. Os cientistas dizem que apenas as pessoas imunes á doença desembarquem. Os cientistas dizem que sou imune á doença.

Os doentes dizem que a epidemia atacou de repente e que em poucos dias, quase toda a população estaria morta.

Os sete níveis, por Ron Alon

Olá, ghost readers! Para encerrar o ano aqui no Noite Finita, mais um ótimo texto do sobrinho Ron Alon. Desafio meus 2,5 leitores a encontrarem no texto dele a referência a um dos meus (você obviamente não conta, sobrinho). 😉

Por fim, desejo a todos um 2013 de muita paz e de realizações. Abraços!

 

Os sete níveis
por Ron Alon

 

Existem sete níveis.
Primeiro você nasce. Bonito como sempre foi. É fofinho para cá, fofinho para lá. O centro do universo. Nenhum mistério, certo?
Depois você cresce um pouco. Agora já tem uns três anos. É um pestinha! Tira isso da boca! Não, não coloque o dedo na tomada! NÃO! Pedra não é de comer… Mas porque raios você vai colocar uma pedra na boca? Certo.
Agora você já tem seus sete anos. É a primeira vez que você vai enfrentar a escola. Puxa, que coisa difícil. Ali tem tanto seus amigos e tanto aqueles que vão infernizar sua vida. Tudo começa aí. É a preparação para o trabalho – ou melhor, tortura. Às vezes você fica amigo do líder da turma. Ou vira o líder. Mas é um novo nível.
Virei rebelde! Um novo nível! Odeio meus pais, minha vida, esta comida, esta roupa. Odeio tudo! Vou fugir de casa e viver de pão velho e cimento. Vou vestir só vermelho! Revolução! Vá com Deus. Espero que não caia de um prédio e não precise de um sangue raro – e azul.
Vestibular! É quando a mamadeira acaba. Agora é tu por tu. Sacomé, a hora de fazer aquela prova que vai definir teu futuro. Ainda há chance de saber se fez a escolha errada. Mas geralmente você já está decidido. No terceiro nível começa-se a escolher a profissão. Agora é colocá-la em prática. A confusão está aqui também: jovem pra ser velho / velho pra ser jovem. Não pode-se mais agir como criança – mas não consegue ser adulto.
Formatura. Ouviram do Ipiranga. Nova etapa. Joga canudos. Procura emprego. Vive o sonho. Depressão. Conta pra pagar. Socorro! Tudo isto chega agora. São os problemas da, enfim, vida adulta. Aquela vida que, no segundo nível, você sempre quis ter. Neste momento, você quer voltar para o segundo nível. Ser criança de novo.
E a velhice chega… A melancolia toma conta. Os tempos de criança estão cada vez mais presentes. Geralmente existem netos. Eles fazem você voltar ao primeiro nível. Mas com a experiência conquistada em todos os outros seis – inclusive neste mesmo. É aqui que você reflete em tudo o que você passou em sua vida. O que valeu a pena. O que não valeu. É aqui que você tem histórias para contar: as burradas que fez na vida e os acertos também. É aqui que você chega ao ápice. É aqui que você descobre, enfim, que viveu.
E que existem sete níveis.

Vislumbre

Olá, ghost readers! Hoje faço a última postagem de um texto meu no blog neste ano de 2012 (sim, as férias se aproximam, mas seus frutos só devem começar a brotar em meados de janeiro). Trata-se de um conto inspirado, em parte, e dedicado à belíssima obra do mineiro Murilo Rubião, a quem eu conhecia apenas de nome até há pouco tempo. Entretanto, é claro que este meu texto não chega aos pés dos — literalmente — fantásticos contos de Rubião (a propósito, mais que recomendo a leitura deles); é algo bem mais singelo, senão comum.

Bom fim de semana a todos! Aliás, Chanukah tem início no sábado à noite. Aos que, como eu, celebram a festa, Chag Chanukah Sameach!

Chanukah

Chanukah Sameach!

 

Vislumbre

 

Dia de semana, uma quarta-feira qualquer. Pouco após o almoço, numa tarde de sol entre nuvens, entrei no ônibus, que não estava tão vazio quanto se poderia esperar a julgar pelo período. Não era, porém, a linha que deveria ter tomado. Eu sabia disso, mas quisera me adiantar, ganhar algum tempo, pois o outro ônibus iria ainda demorar; quem sabe eu pudesse descer no caminho e andar algumas quadras a mais até chegar ao destino proposto. Não poderia. O desvio era grande e eu teria que caminhar quilômetros. Chegaria atrasado. Não desci no ponto que havia pré-planejado, onde as duas linhas, aquela em que eu deveria estar e aquela em que eu de fato estava, ainda convergiam. O ônibus dobrou à esquerda. Segui num rumo não tão incerto.

Afastei-me consideravelmente de meu destino, ao menos do que haviam traçado para mim. Eu, de pé, dentro do ônibus, observava tudo com atenção, vendo passar pela janela os cenários desconhecidos, ainda que imaginados – vilarejos e vielas. O ônibus parava e pessoas desciam. Dois, três, quatro pontos, em cada um deles uma enxurrada de gente deixava o veículo e se dirigia mecanicamente aos casebres amontoados um após o outro. Eu, no entanto, permaneci, e pouquíssimas pessoas comigo. Iria agora até o ponto final. Depois imploraria ao motorista que me deixasse retornar com ele para o terminal, prática que se fazia proibida. Peguei o ônibus errado, eu argumentaria, no rosto os olhos arregalados, perdidos.

Após certo ponto já não havia mais asfalto; a rua transformara-se em estrada de chão batido. O aglomerado de casas havia desaparecido, restando apenas uma ou outra em meio a um sem fim de bosques e plantações, em um terreno repleto de morros e de altos e baixos. A cidade ficara para trás. Restava, agora, o que alguns chamariam paraíso. Minutos depois (estes duraram segundos), o ônibus chegava a seu destino final; eu, ainda não. Não pedi ao motorista que me desse permissão para voltar. Desci, sozinho.

Caminhei pelo campo, sem parar, sem sair do lugar. Passei por algumas casas, simples casebres de madeira de piso baixo, razoavelmente distantes umas das outras. Atravessei-as sem pudor, entrando pelas portas da frente e saindo pelas dos fundos. Não me deparei com uma alma viva que fosse, embora estivesse certo de que não eram desabitadas. Em uma delas, última pela qual passei, sofá e almofadas comuns, mas aconchegantes, convidavam a um breve repouso. Quem sabe pudesse me sentar ali, reclinar a cabeça contra a parede de madeira, fechar os olhos e cochilar, desfrutando da tranquilidade do lugar, oásis de paz e sossego. Não o fiz, porém. Saí pela porta dos fundos sem hesitar, deixando para trás o sofá, as almofadas e a pequena casa.

A poucos metros dali jazia um tipo de curral cercado por um pedaço de arame de não mais que um metro de altura. Curioso, apressei o passo, me aproximando do cercado em uma fração de segundo. Por trás dele havia alguns animais, dos mais usuais, como galinhas, a outros nada comuns, cuja espécie mal pude identificar. Mansos, eles não tentavam, de maneira alguma, escapulir dali (alguns poderiam saltar e pular facilmente a cerca de arame, outros poderiam voar para longe e ainda havia os que passariam com tranquilidade por baixo da cerca). Pelo contrário, limitavam-se a vaguear, tranquilos, pelo pouco espaço que lhes fora destinado. Parei diante deles, admirado. Encarou-me o maior deles, uma mistura de galgo e preguiça, cuja pelagem cinza-claro me pareceu bastante vistosa; este se movia lentamente, e seu semblante pacífico, isento de vaidade, me fazia querer me aproximar. Naquele momento uma sensação inesperada tomou conta de mim. Não eram animais quaisquer. Sim, eu me recordava deles. De cada um deles.

– Vocês se lembram de mim? – perguntei, ansioso. Temi pela resposta. Viam em mim o mesmo que eu via neles?

O bicho cinza manteve os fulgentes olhos tristonhos fitos em mim. Meu coração palpitava e meus olhos aos poucos se encheram de lágrimas. Eu os havia encontrado. Não da maneira que eu esperava; por sinal, bem diferente disso. Mas ali estavam eles, ou pelo menos versões suas. Sua essência, porém, intacta. Uns belos pássaros de plumagem negra e brilhante e penachos coloridos na cauda e na cabeça se chegaram ao arame, encarando-me com os olhinhos curiosos.

– Sim, nós conhecemos você! É o cãozinho pretinho! – disseram as aves aos risinhos, graciosas.

Eu era mesmo um cão de pequeno porte, pelos pretos e curtos, pendurado na cerca indolor. Entretanto, a forma com que me apresentava não me era importante. Há muito não os via. Acometido pela nostalgia, tudo que queria era ficar ali, deleitando-me com a agradável presença e conversa. O amistoso Cinzento, como eu o chamava, era a mais sábia dentre todas aquelas criaturas. Fora dele, sem dúvida, que eu mais sentira falta, e não era por acaso que desejava poder abraçá-lo, sentindo-me afundar na pelagem macia. Jurei que atenderia com toda certeza seu único e singelo pedido, feito a mim quando eu soube, após segundos, horas de convivência, que chegara o momento de retornar e mais uma vez me despedi deles.

– Não se esqueça de mim! – solicitou, e imaginei ter visto em seu focinho um discreto sorriso.

Os olhos marejados vendo-o atrás da cerca, meneei a cabeça e, tendo retornado à forma humana, acenei para ele. Por certo, Cinzento, sua imagem – e a de todos os outros bichos – ficaria para sempre guardada na memória e no coração, sendo, portanto, perpetuada. Assim, tendo no peito o consolo e a saudade, parti, incerto sobre quando voltaria a vê-los. Algum dia, talvez, em outros espaços, de outras formas, mas finalmente não mais num mero vislumbre.

Pedras

Olá, ghost readers! Posto hoje uma singela crônica, ou coisa do tipo – ainda me confunde e atormenta, admito, a linha tênue que separa este gênero de outros similares. Um texto curto, cuja leitura não deve durar mais que cinco minutos, embora para alguns as palavras possam levar muito mais tempo para serem digeridas. Uma ótima semana a todos! Abraços!

 

Pedras

Pedras atravessam o vidro da sala. Vejo, lá fora, os homens que as atiraram. Há mais, muito mais em suas mãos. Chamo a polícia; ela não vem. Abandona-me, deixa-me sem resposta, sem respaldo. Os homens atiram mais pedras, estilhaçando agora as janelas dos quartos das crianças, da cozinha, do banheiro. Farão ainda pior, por certo. O que devo fazer? Deixo que continuem? E se uma pedra atingir em cheio a cabeça dos meus filhos? Não. Não posso permitir que isso aconteça. Ameaço os homens. Arrogantes e aparentemente determinados, não dão ouvidos às minhas palavras e prosseguem seu ataque. Não me resta escolha. Tomo a espingarda de pressão que jazia em meu armário e parto para a janela, determinado a mirar as pedras em suas mãos. Derrubá-las, por certo, será o bastante. Entretanto, para meu espanto, noto que eles agora estão a maior distância; diante deles, crianças, seus próprios filhos, em cujas mãos também repousam pedras, ainda que menores. Miro os homens ao fundo com alguma dificuldade; se eles pararem, se desistirem de seu intento, irão embora e levarão as crianças consigo. Com precisão, consigo acertar as pedras, tirando-as de suas mãos e as fazendo despedaçarem-se no chão. Infelizmente, porém, não pude evitar atingir o braço de um, o abdômen de outro, a orelha de uma das crianças. Lamento por isso. Faria o que fosse possível para ajudá-los, para tratar do ferimento da criança, se me permitissem. Eles, no entanto, me dão as costas e correm para longe, carregando espalhafatosamente consigo a criança ferida e gritando calúnias e insultos dirigidos a mim. Clamam pela polícia. Ela vem e me interroga, me condena. “Como pôde atirar desse jeito em crianças inocentes?”, indaga um dos oficiais. Explico, justifico-me, embora totalmente em vão. Não me dão ouvidos. Argumento, por fim, que não gostaria que tivesse sido assim. Verdade absoluta. Porém, não acreditam ou fingem não acreditar. Finalmente, resignado diante da posição da polícia, ao menos me conforta saber que nada de mal aconteceu à minha família, a meus filhos. Os puxo para perto de mim, envolvo-os sob meus braços. Estão seguros. Se depender de mim, assim estarão por todo sempre.

Estrelas

Olá, ghost readers! Este ghost semi-writer que vos escreve anda bem ausente, é verdade, mas não vai colocar a culpa na falta de tempo ou de inspiração desta vez. Se trata apenas de uma questão de prioridades, e posso dizer que alguns dos meus mais recentes textos (não postados aqui) estão sendo bastante trabalhados para fins um pouco mais ambiciosos (no melhor sentido do termo, nesse caso). De qualquer modo, para hoje posto um belíssimo poema do meu amigo e sobrinho Ron Alon (visitem: http://aviagemnasletras.wordpress.com). Digo que gostei muito desse texto e que é sem dúvida um dos meus favoritos. Ótimo fim de semana a todos!

Estrelas

Nunca vi um céu
tão bonito quanto este.
Escuro e iluminado:
cheio de estrelas.

A lua, brilhosa,
governa a noite inteira.
E há vaga-lumes voando
e corujas cantando.

Sinto frio
mesmo estando aquecido
por uma lareira.

Olho para cima
e vejo Vênus.
Fecho os olhos e
ainda vejo a noite.

Brilhantes estrelas
que o céu iluminam
são pingos na imensidão.
São como grãos de areia.

Se parecem conosco:
pequenas no grande universo.
São nossos reflexos,
como nós mesmos.

Kipur

Olá, ghost readers! Este conto não está pronto; longe disso. Mas gostaria de postá-lo hoje assim mesmo, ainda que esteja “cru”, por se tratar de algo específico para esta época. Para este dia. Abraços a todos!

Kipur

 

A ave entre as mãos trêmulas, suas penas roçando-lhe os dedos. Piscou os olhos. Chegava a hora. Suspirou. Sabia que olhares atentos recaíam sobre si. Com o animal à altura do peito (evitava apertá-lo em demasia; não, não queria feri-lo, não tanto quanto deveria ser), começou a proferir, de modo incrivelmente fluente, ainda que o mais vagaroso possível, as palavras já há muito gravadas na mente.

Escuridão. Borda névoa e inocula a dor, a morte. A culpa é minha, pensou. Se eu não tivesse… Talvez se… Se… Meras suposições. Inúteis. Tanto quanto ele próprio. As palavras seguiram escapando-lhe dos lábios. Cada sílaba expressada era um punhado de areia caindo pesadamente no fundo da ampulheta. Diminuiu o ritmo. Não podia parar, sabia que não. Seria repreendido. Mas podia falar mais devagar, isso sim. Estou tentando lembrar, argumentou. Uma gota de sangue a mais tocaria o chão. Estúpido. Era ele também, sem dúvida, insensato e aflito. Grossas correntes lhe envolviam os braços e as pernas; não podia se soltar. Clamaria ao céu, ele, o filho do homem. Imploraria pela cura; pela vida. De lá viria a solução. De que modo? Já conhecia o final.

Era findada a primeira etapa. Ofegante, acariciava, discreto, as penas macias. Com o bico, a ave lhe beliscava carinhosamente as pontas dos dedos. Levantou os olhos. Erga o galo, ouviu, a voz firme, o oposto de suas pernas. Engoliu seco. Piscou. Esticou os braços, suspendendo o animal, manso, por sobre sua cabeça. Mais palavras a serem ditas. Estas as últimas, ainda que repetidas vezes. Moveu os lábios, mas nenhum som saiu por eles. Nova repreensão. Não tinha saída.

Inocência. Girou o animal. Chagas apareceriam logo, infinitas fontes, as torrentes intensificavam-se. Por que ele e não eu, ponderou. A ave nunca fizera mal algum; mansa desde sempre, até mesmo um tanto amistosa. Subia-lhe no ombro vez ou outra. Gostava que lhe acariciassem o peito. Ele, porém, era o filho do homem, aquele que tanto amara a escuridão e fugira da luz. Desenhou com o galo novo círculo sobre a cabeça. Trevas moldavam um rastro alargado, tornando-se imensas. O coração palpitava, queria escapar-lhe pela boca. O tempo, desgraçado, passava rápido demais. Minutos contados. Os olhares ainda jaziam sobre ele. Havia mais a ser dito. Havia algo a ser feito. Os braços estendidos, girou a ave mais uma vez. Cerrava-se a porta alva, retumbava alto trovão, inabalável. A morte aproximava-se, sorrateira. Alguém, dentro em breve, deveria beijar seus lábios nada cálidos.

Repetiu as palavras e giros. Uma, duas vezes. Não havia nada que pudesse fazer. A não ser, é claro, que estivesse disposto a responder pelas próprias faltas. Estava? É óbvio que não. Covarde. Irritou-se consigo, com sua covardia, sua insensatez. Desceu o galo, depositando-o nos braços do pai, o velho de barba grisalha e vestes negras. Nas mãos deste, já preparada, a lâmina afiada. Tremeu, mais, muito mais que antes. Virou o rosto; não queria olhar, não queria ver. Não. Que ao menos, então, encarasse os fatos, num último ato de respeito, tanto a si próprio quanto para com o velho amigo — Kipur era o seu nome. Pálido, girou sobre o tronco. Seus olhos, de pronto, encontraram os do bichinho, que o fitava com afeto, a lâmina já quase rente ao pescoço. Era por ele que a ave se entregara, quase que voluntariamente. Sim. Ela o compreendia. Ele não precisaria morrer. Ela, sem hesitar, seria sua substituta. Calada. Pacífica.

O sangue foi derramado ao chão, misturando-se à terra seca e formando um barro cetrino, vívido. Duas lágrimas salgadas, amargas, umedeceram a pele macia do rosto do garoto. Em algum ponto, uma folha de papel embebeu rastros de tinta. Vida. Longa e boa. Cheia de paz. Deveria, agora, caminhar à luz. E não esquecer. Jamais.

Teshuvá

O filho de um rei tinha ido pelo mau caminho. Seu pai lhe mandou uma mensagem, rogando-lhe:
“Volta, filho.”
“Como posso voltar? Estou envergonhado de voltar à tua presença”, respondeu o filho.
Então o pai lhe mandou outra mensagem, dizendo:
“Volta até onde conseguires, e eu irei encontrar-te no restante do caminho.”
Do Talmud, extraído da revista Morashá ed. nº 77.

Empatia

 

Trabalho em um ambiente voltado para a educação. As pessoas que lá trabalham, ao menos em sua maioria, estão envolvidas diretamente com essa área. Supõe-se, então, que elas adotem, profissionalmente, uma postura humana e compreensiva, algo que, por sinal, tanto gostam de apregoar. Não é o que acontece.

Moro longe do local de trabalho, e por isso, devido ao fato de ter de me deslocar de ônibus e consequentemente enfrentar trânsito, costumava entrar entre 20 e 30 minutos do horário-base, no caso, 8h, flexibilidade permitida pelo acordo coletivo firmado, que adotou o banco de horas (tanto é que nunca fui o único a não estar na empresa religiosamente às 8; além disso, nunca deixo de cumprir a carga horária diária, tanto que me mantenho geralmente com saldo positivo de horas). Ocorre que alguns colegas, como que responsáveis pela vida alheia, se incomodaram com isso e, depois de uma ou outra indireta, levaram o fato à coordenação – isto deduzi, verdade seja dita, mas as características pessoais de certos colegas, que já conheço bem, e a consideração de que a coordenação não necessariamente se importava tanto com isso me fizeram chegar a essa conclusão. Fui chamado pela chefe para comparecer a sua sala, e lá me foi dito o seguinte:

— O horário é 8 horas, e você precisa estar aqui nesse horário.

Certo. Banco de horas existe pra quê?

— Tenho problemas com o trânsito. – respondi, numa simplificação absurda do que de fato acontece; nunca acho as palavras adequadas assim, de pronto, e com isso dificilmente consigo dizer o que eu quero ou o que precisava ser dito. Se pudesse escrever, como faço agora, seria muito mais fácil. Infelizmente, nem sempre é possível.

—É, mas você tem que dar um jeito. Tem que estar aqui às 8. [ponto]

Ok. Saí da sala sem dizer mais palavra sobre. Não contei à chefe que quando saio de casa pela manhã não sento o traseiro no confortável banco de um carro e não vou dirigindo, livre, até o prédio, cabelos balouçando ao vento, curtindo uma musiquinha legal ou ouvindo notícias – distrações para o caso de um possível congestionamento, do qual, se for esperto, posso desviar; se não, ao menos estarei em um espaço minimamente cômodo. Não lhe disse que de casa vou direto para o terminal de ônibus, onde uma estação-tubo transbordando de gente me aguarda – e só ali já perco uns 15 minutos, ou mais, até que, enfim, consiga entrar em um ônibus; que inúmeras vezes me forço a ir esmagado em meio ao amontoado de pessoas dentro do veículo, a fim de não me atrasar mais, e ter de ficar ali muitas vezes por mais de uma hora, visto que o motorista tem de seguir o percurso da linha, independente de passar por ruas congestionadas ou não. Sem falar quando, vez ou outra, o ônibus quebra e sou obrigado a descer e entrar em outro ainda mais cheio.

(Aqui, um adendo. Nenhum dos meus colegas e chefes perguntou, mas a vocês, ávidos leitores, irei contar. Sabem como é para alguém no espectro do autismo ter de ficar no meio de um monte de pessoas que falam todas ao mesmo tempo e lhe tocam de algum modo, prensando seus corpos contra o seu? Para os neurotípicos talvez seja um mero incomodozinho, algo desagradável, mas que pode ser relevado. Para mim é algo que beira a claustrofobia – creio que isso seja mais fácil de ser imaginado –, que me deixa extremamente irritado e cansado e que, dependendo da intensidade, vai me fazer me sentir mal por um bom tempo.)

Eu não detalhei, também, a questão do trânsito – em alguns pontos, o ônibus chega a levar cerca de 20 minutos para percorrer um trecho de não mais que 500 metros. E, na verdade, são três os pontos de congestionamento que “enfrento” desde o terminal de ônibus até a região central em que se localiza o prédio da empresa. Portanto, calculem.

 

É engraçado como profissionais de educação (incluo aqui as pessoas com as quais trabalho) adoram fazer belíssimos e pomposos discursos: “Temos de nos colocar no lugar do outro”; “precisamos ser compreensivos, humanos, aceitar as diferenças”; “precisamos compreender o outro, não condená-lo”; “não podemos agir baseados em pré-julgamentos”; “devemos ter empatia”; “ooooooooom” [leia todas as frases no tom mais zen possível, visualizando pedagogas em posição de lótus]. Joia. Tudo muito legal, tudo muito bonito. Seria ainda mais legal e mais bonito se fosse colocado em prática. As mesmas pessoas que entoam estas e outras frases semelhantes são as que lhe dizem, às vezes não por palavras, mas com suas atitudes: “Eu não quero saber dos seus problemas”; “não me interessa se você tem dificuldades, interessa que faça o que eu estou mandando”; “eu não me importo em conhecer os motivos do outro; ele é como eu; se eu não tenho problemas, ele também não tem”; “eu, eu, eu”.

A situação toda merecia um conto-resposta como ilustração, é verdade. Mas hoje estou tão chateado e desanimado que preferi expressar tudo diretamente, sem rodeios, doa a quem doer (ou a quem ler). A vontade que tive foi de me levantar da cadeira de escritório, enviar este texto à gerente, ao diretor e demais interessados (já que não conseguiria me expressar oralmente de maneira satisfatória), pedir minhas contas e ir embora. Sabem por que não fiz isso? Por um único motivo: minha mãe, com quem vivo e a quem atualmente sustento. E isto não significa que eu seja “bom” ou um “ser superior”, mas sim porque é meu dever e minha retribuição a ela por ter feito tudo o que pôde para me proporcionar o que tenho hoje. Faço por gratidão.

Eu tinha só 10 anos quando meu pai aprontou (mais uma vez) e acabou sendo preso. Minha mãe, então, teve de arranjar um emprego para me sustentar. Ela não trabalhava há mais de uma década, atendendo a uma exigência do marido. Por isso, tudo que conseguiu na época foi um trabalho de empregada doméstica no apartamento de uma prima rica, no bairro Cabral. Mais tarde passou a diarista, depois a copeira no escritório de uma empresa estrangeira dedicada à navegação comercial. Ganhava sempre não mais que dois salários. Pagava o aluguel, luz, água, telefone, as compras do supermercado, minhas roupas e sapatos, meus materiais e uniformes escolares, meus livros da faculdade, meus caprichos (um docinho aqui, uma revistinha ali). E, no entanto, nunca deixou que faltasse coisa alguma. Fazia mágica, penso. Verdadeira heroína.

Por tudo isso, e por muito mais, continuarei aqui, firme e forte. Por tudo isso, “darei um jeito”, cara chefe, e registrarei meu cartão-ponto às 8, mesmo que tenha de levantar da cama bem mais cedo e enfrentar ônibus ainda mais lotados, trânsito mais caótico e meus consequentes transtornos. Por minha mãe, que merece tudo de melhor. Porque isso, prezados colegas, isso é ter empatia, isso é colocar-se no lugar do outro. E, vejam só, que bela ironia: um autista, que, dizem por aí, faz parte de um grupo de criaturas desprovidas de empatia, vivenciando aquilo sobre o qual tanto ouve falar. Enquanto isso, vocês falam, falam, falam… Palavras de ouro. E mãos e mentes atrofiadas. Podres.

MPF, os ciganos e o Houaiss – tudo a ver

Olá, ghost readers!

Tentei escrever uma breve introdução ao tema, mas minha cachola não está funcionando muito bem nesta tarde (febre, dor de cabeça e cansaço físico dizem ‘olá, Kobi’; o cineminha solitário de depois do trabalho diz ‘adeus’). Por isso, vou direto ao ponto. Primeiro, se você ainda não soube do novo absurdo do Ministério Público, clique aqui:

http://noticias.pgr.mpf.gov.br/noticias/noticias-do-site/copy_of_indios-e-minorias/mpf-mg-vai-a-justica-para-mudar-verbete-do-dicionario-houaiss

 

Leu? Pois é. Se você também está se perguntando se o MPF não tem nada mais importante pra fazer (como, por exemplo, investigar fraudes e casos de corrupção no governo, fiscalizar o uso do dinheiro público, etc., etc., etc.), bem-vindo ao clube. Se você concorda com essa patacoada do MPF, precisa procurar esclarecimentos.

 

Enfim, a ditadura do “politicamente correto” impera (enquanto isso, em Brasília, os ratos fazem a festa). E traz com ela, atada a correias, a censura. Sim, censura – porque ameaçar retirar de circulação um dicionário reconhecido por conta de um único verbete não pode ter outro nome. Obviamente, não pude ficar calado; tive de me manifestar, enviando um e-mail diretamente ao MPF/MG, responsável pela ação civil (pública!) contra a Editora Objetiva e o Instituto Antonio Houaiss. O conteúdo do e-mail segue abaixo. Estejamos atentos para que a referida ‘ditadura’ não ultrapasse a fronteira do “politicamente correto” e não avance para um âmbito maior (e os conspiracionistas de plantão, então, poderão bradar: “eu já sabia!”). Olhos abertos, povo. Olhos bem abertos.

 

Ao MPF/MG

 

“Bom dia.

É simplesmente absurdo, inadmissível e descabível que o MPF esteja forçando a Editora Objetiva e o Instituto Antonio Houaiss a alterarem o verbete do referido dicionário sob a acusação de ‘racismo’ — e, pior, a ameaça ainda mais estapafúrdia de que o dicionário seja retirado de circulação.

Primeiramente, devem se recordar, meus caros, que um dicionário (ao menos um BOM dicionário, como é o Houaiss), nada mais, nada menos, retrata os mais variados USOS dos vocábulos de uma língua. Desta forma, se o Houaiss e outros dicionários trazem, dentre outros, tal significado para o termo ‘cigano’, deve-se tão somente ao fato de que (independente da carga pejorativa que o uso supostamente carrega) em algum lugar deste país há pessoas que o utilizam. É função de um bom dicionário retratar tal fato (desde que esclareça, obviamente, que se trata de um uso pejorativo).

Me surpreende que as coisas estejam chegando a esse ponto, a esse tamanho abuso. Digam-me: por que não processam os biólogos (e boa parte da população) por denominarem a Tanacetum vulgare como “catinga-de-mulata”, um termo claramente provindo de um uso de cunho pejorativo? Mas sugiro que vão além: vasculhem os campos em busca da planta, e então arranquem todas as catingas-de-mulata que encontrarem e as queimem numa imensa fogueira. Deste modo, os afrodescendentes nunca mais se sentirão ofendidos com a simples presença da erva diante de si.

Por fim, chego à conclusão de que o Estado de Minas Gerais e o Brasil não têm problemas mais graves a serem resolvidos; não há políticos corruptos desviando o dinheiro público; não há falta de investimento em educação, saúde, segurança, moradia; enfim, não há nada realmente importante a ser questionado e investigado. Explica-se, então, o tempo disposto para tratar de ‘picuinhas’ como o verbete de um dicionário, ou para promover uma caça às bruxas nas obras literárias antigas (e Monteiro Lobato deve estar se revirando no túmulo até hoje). Esse tipo de coisa, a propósito, tem nome, e um nome que os brasileiros conhecem bem (embora, memória curta, já pareçam ter esquecido): censura. E censura e democracia, meus caros, não podem caminhar de mãos dadas.”

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