O urubu verde
Olá, ghost readers. Hoje não tenho nada a dizer além do que o narrador traz à luz no conto abaixo. Uma boa semana a todos.
O urubu verde
Manhã fria de inverno. Elpídio levantou-se e foi até a janela, como de costume. Notou algo curioso em seu quintal. Um pássaro havia pousado ali. Não um qualquer. Era um urubu. Não um qualquer. Tinha penas verdes, brilhantes, tas quais as de um pavão. Mas não era um pavão, Elpídio constatou. Era mesmo um urubu. O bico curvo e as plumas dispostas ao redor do longo pescoço o denunciavam.
Um belo urubu, por sinal. As penas verdes resplandeciam aos primeiros raios de sol. O pássaro caminhava lentamente pelo quintal, de um lado para o outro, como se quisesse visitar cada minúscula parte deste. Elpídio, então, teve uma ideia brilhante. Fotografaria a ave, de todos os ângulos possíveis, e enviaria as fotos para alguma organização de cientistas. Sim, ele se tornaria reconhecido por aquela estrondosa descoberta. Um urubu verde, imaginem!
Não só isso: tomaria o bicho para si. Afinal, fora o próprio que escolhera o seu quintal para pousar. O alimentaria diariamente e, assim, ele permaneceria ali, talvez para sempre, como um animal de estimação, o mais bonito e raro do planeta, do universo inteiro. Quantas alegrias a ave lhe proporcionaria…
Não podia perder mais tempo. Correu até a geladeira, tomou um pedaço da melhor carne que tinha e caminhou lentamente pelo quintal, tentando não espantar o pássaro ao aproximar-se dele. Estendeu a mão esquerda com o pedaço de carne na direção do urubu, que para sua surpresa, não voou. O animal, por sinal, manso como um crocodilo, tomou o pedaço de carne e o engoliu em algumas poucas bicadas. Ficou ali, encarando Elpídio, seus brilhantes olhos negros fitos no fundo dos olhos do homem. “Estou perto, estou muito perto”, Elpídio pensou, esforçando-se para conter a euforia.
Ajoelhou-se e, num movimento levíssimo, pousou a mão sobre a cabeça do urubu. Acariciou-o, sentindo a sedosidade de suas plumas verde-escuras, fulgentes. A ave, por sua vez, nada fazia. Extasiado, Elpídio abraçou o pássaro, tal como se fosse o mais fofo dos ursinhos de pelúcia. Estava completo. Sim, conseguira.
Au! De repente, um beliscão atrás da orelha. Não ligou, tamanha a alegria que sentia. Outro beliscão, este no pescoço, e mais outro no ombro direito. O último muito mais dolorido que os dois primeiros. Olhou para o lado e viu o ombro ferido, a roupa manchada de sangue, assim como o bico do urubu – que só então Elpídio percebeu o quanto era pontiagudo e afiado. Viu-o beliscando, agora, seu braço direito. Tentou afastar-se, empurrando o pássaro com os pés. Tarde demais.
Avançando sobre o pobre homem, que nada pôde fazer, o urubu arrancou-lhe a violentas bicadas pedaço por pedaço, membro por membro, até devorá-lo por completo, deixando apenas os ossos. Secos. A ave, de pança cheia, descansou por duas horas e alçou voo, carregando na barriga saliente os restos do que fora um dia o desesperado Elpídio.
