Empatia
Trabalho em um ambiente voltado para a educação. As pessoas que lá trabalham, ao menos em sua maioria, estão envolvidas diretamente com essa área. Supõe-se, então, que elas adotem, profissionalmente, uma postura humana e compreensiva, algo que, por sinal, tanto gostam de apregoar. Não é o que acontece.
Moro longe do local de trabalho, e por isso, devido ao fato de ter de me deslocar de ônibus e consequentemente enfrentar trânsito, costumava entrar entre 20 e 30 minutos do horário-base, no caso, 8h, flexibilidade permitida pelo acordo coletivo firmado, que adotou o banco de horas (tanto é que nunca fui o único a não estar na empresa religiosamente às 8; além disso, nunca deixo de cumprir a carga horária diária, tanto que me mantenho geralmente com saldo positivo de horas). Ocorre que alguns colegas, como que responsáveis pela vida alheia, se incomodaram com isso e, depois de uma ou outra indireta, levaram o fato à coordenação – isto deduzi, verdade seja dita, mas as características pessoais de certos colegas, que já conheço bem, e a consideração de que a coordenação não necessariamente se importava tanto com isso me fizeram chegar a essa conclusão. Fui chamado pela chefe para comparecer a sua sala, e lá me foi dito o seguinte:
— O horário é 8 horas, e você precisa estar aqui nesse horário.
Certo. Banco de horas existe pra quê?
— Tenho problemas com o trânsito. – respondi, numa simplificação absurda do que de fato acontece; nunca acho as palavras adequadas assim, de pronto, e com isso dificilmente consigo dizer o que eu quero ou o que precisava ser dito. Se pudesse escrever, como faço agora, seria muito mais fácil. Infelizmente, nem sempre é possível.
—É, mas você tem que dar um jeito. Tem que estar aqui às 8. [ponto]
Ok. Saí da sala sem dizer mais palavra sobre. Não contei à chefe que quando saio de casa pela manhã não sento o traseiro no confortável banco de um carro e não vou dirigindo, livre, até o prédio, cabelos balouçando ao vento, curtindo uma musiquinha legal ou ouvindo notícias – distrações para o caso de um possível congestionamento, do qual, se for esperto, posso desviar; se não, ao menos estarei em um espaço minimamente cômodo. Não lhe disse que de casa vou direto para o terminal de ônibus, onde uma estação-tubo transbordando de gente me aguarda – e só ali já perco uns 15 minutos, ou mais, até que, enfim, consiga entrar em um ônibus; que inúmeras vezes me forço a ir esmagado em meio ao amontoado de pessoas dentro do veículo, a fim de não me atrasar mais, e ter de ficar ali muitas vezes por mais de uma hora, visto que o motorista tem de seguir o percurso da linha, independente de passar por ruas congestionadas ou não. Sem falar quando, vez ou outra, o ônibus quebra e sou obrigado a descer e entrar em outro ainda mais cheio.
(Aqui, um adendo. Nenhum dos meus colegas e chefes perguntou, mas a vocês, ávidos leitores, irei contar. Sabem como é para alguém no espectro do autismo ter de ficar no meio de um monte de pessoas que falam todas ao mesmo tempo e lhe tocam de algum modo, prensando seus corpos contra o seu? Para os neurotípicos talvez seja um mero incomodozinho, algo desagradável, mas que pode ser relevado. Para mim é algo que beira a claustrofobia – creio que isso seja mais fácil de ser imaginado –, que me deixa extremamente irritado e cansado e que, dependendo da intensidade, vai me fazer me sentir mal por um bom tempo.)
Eu não detalhei, também, a questão do trânsito – em alguns pontos, o ônibus chega a levar cerca de 20 minutos para percorrer um trecho de não mais que 500 metros. E, na verdade, são três os pontos de congestionamento que “enfrento” desde o terminal de ônibus até a região central em que se localiza o prédio da empresa. Portanto, calculem.
É engraçado como profissionais de educação (incluo aqui as pessoas com as quais trabalho) adoram fazer belíssimos e pomposos discursos: “Temos de nos colocar no lugar do outro”; “precisamos ser compreensivos, humanos, aceitar as diferenças”; “precisamos compreender o outro, não condená-lo”; “não podemos agir baseados em pré-julgamentos”; “devemos ter empatia”; “ooooooooom” [leia todas as frases no tom mais zen possível, visualizando pedagogas em posição de lótus]. Joia. Tudo muito legal, tudo muito bonito. Seria ainda mais legal e mais bonito se fosse colocado em prática. As mesmas pessoas que entoam estas e outras frases semelhantes são as que lhe dizem, às vezes não por palavras, mas com suas atitudes: “Eu não quero saber dos seus problemas”; “não me interessa se você tem dificuldades, interessa que faça o que eu estou mandando”; “eu não me importo em conhecer os motivos do outro; ele é como eu; se eu não tenho problemas, ele também não tem”; “eu, eu, eu”.
A situação toda merecia um conto-resposta como ilustração, é verdade. Mas hoje estou tão chateado e desanimado que preferi expressar tudo diretamente, sem rodeios, doa a quem doer (ou a quem ler). A vontade que tive foi de me levantar da cadeira de escritório, enviar este texto à gerente, ao diretor e demais interessados (já que não conseguiria me expressar oralmente de maneira satisfatória), pedir minhas contas e ir embora. Sabem por que não fiz isso? Por um único motivo: minha mãe, com quem vivo e a quem atualmente sustento. E isto não significa que eu seja “bom” ou um “ser superior”, mas sim porque é meu dever e minha retribuição a ela por ter feito tudo o que pôde para me proporcionar o que tenho hoje. Faço por gratidão.
Eu tinha só 10 anos quando meu pai aprontou (mais uma vez) e acabou sendo preso. Minha mãe, então, teve de arranjar um emprego para me sustentar. Ela não trabalhava há mais de uma década, atendendo a uma exigência do marido. Por isso, tudo que conseguiu na época foi um trabalho de empregada doméstica no apartamento de uma prima rica, no bairro Cabral. Mais tarde passou a diarista, depois a copeira no escritório de uma empresa estrangeira dedicada à navegação comercial. Ganhava sempre não mais que dois salários. Pagava o aluguel, luz, água, telefone, as compras do supermercado, minhas roupas e sapatos, meus materiais e uniformes escolares, meus livros da faculdade, meus caprichos (um docinho aqui, uma revistinha ali). E, no entanto, nunca deixou que faltasse coisa alguma. Fazia mágica, penso. Verdadeira heroína.
Por tudo isso, e por muito mais, continuarei aqui, firme e forte. Por tudo isso, “darei um jeito”, cara chefe, e registrarei meu cartão-ponto às 8, mesmo que tenha de levantar da cama bem mais cedo e enfrentar ônibus ainda mais lotados, trânsito mais caótico e meus consequentes transtornos. Por minha mãe, que merece tudo de melhor. Porque isso, prezados colegas, isso é ter empatia, isso é colocar-se no lugar do outro. E, vejam só, que bela ironia: um autista, que, dizem por aí, faz parte de um grupo de criaturas desprovidas de empatia, vivenciando aquilo sobre o qual tanto ouve falar. Enquanto isso, vocês falam, falam, falam… Palavras de ouro. E mãos e mentes atrofiadas. Podres.


