Brócolis
Outubro 9, 2009
Olá, ghost readers! Ainda em período de semi-inatividade (provocado por alguns diversos e relevantes fatores) e tentando emergir de um hiatus criativo, têm sido raros os momentos em que sento – paro e penso – para escrever algo, e por isso o blog segue às moscas (e é possível que assim permaneça por mais algum tempo).
Certo, talvez esse breve depoimento ficasse melhor no Twitter – se eu tivesse um. Por falar no dito cujo, aliás, reparei que ele tem se transformado num polêmico troca-farpas online. Celebridades – atores, cantores, esportistas e companhia – utilizam-se do já consagrado Twitter, um espaço na web a ser aproveitado para algo que se assemelha a um diário (mas com frases ou textos curtos, diferentemente de um blog), para, entre outros, trocar afrontas, fazer críticas veladas (ou não tão veladas) e dizer o que pensam (?), independente do que seja, sem qualquer tipo de censura. E quando brota um arranca-rabo online entre celebridades, algo já bastante comum, o povo faz festa. Sim, o povo, a ralé, a plebe ignara (permita-me a apropriação do termo, caro diretor). Afinal, quem não curte um bom bate-boca, ainda mais envolvendo famosos, mesmo que seja na net? E quanto mais vulgar, melhor. É como brócolis – o sal faz toda diferença (devo supor).
E é dele, do brócolis, não do Twitter, que trata um dos contos que escrevi. Não há realmente uma relação clara entre ele e o desabafo acima, mas sei que lá no fundo, talvez bem no fundo, todas as coisas estão interligadas. Basta refletir um pouco. Um ótimo fim de semana – e feriado (graças!) – a todos!
Brócolis, a revolução verde
Herval era homem do campo, trabalhador rural. Nascera no cafezal; fora criado entre os milharais. Desde cedo, com o pai, colhia os feixes dourados do trigo; alfaces esmeralda; abóboras gigantes. Tinha tudo o que queria até que, num instante, veio o triste dia. A plantação secou; lucro já não rendia. Cansado da vida, Herval proclamou:
- Vou para a cidade, buscar alegria. Digo, com sinceridade: o tempo do campo já passou.
Arrumou as trouxas e foi, uma lágrima nos olhos ao despedir-se do boi. Não mais o veria. Sem olhar para trás, rumou com esperança em direção à cidade cinzenta, ainda que assustado, tal qual uma criança. Apesar do tormento, a chance de um recomeço. Herval, sorria!
Foi trabalhar numa fábrica de embalagens, perído integral. Para dormir, um canto qualquer numa estalagem. Achou que, a princípio, não lhe faria mal. Os meses, porém, foram passando e Herval se cansando – a vida na cidade não era como no campo. Queria voltar, mas já não podia. O salário era parco e só pagava a moradia. Cansado da vida e farto da vista, da cor, do som, do gosto da cidade, adoecido, Herval morreu.
- Morreu?? Como assim? O que aconteceu? – exclamaram os colegas de trabalho, espantados.
- Antes ele do que eu… – sussurrou Juvenal, dentre eles o mais lustroso, o que a notícia havia dado.
Fora ele mesmo, Juvenal, quem encontrara morto o pobre Herval. Um susto, de início; passou rápido. Tomou a carteira do bolso do falecido e saiu, sem deixar nenhum indício. Não ficou contrariado ao não achar nenhum centavo; esperto que era, sabia que uma chance lhe havia surgido.
- Vou mudar de vida! Quero ver quem se mete comigo!
Mudou de cidade. E de nome: não era mais Juvenal; agora era Herval. Não só no nome; era ele próprio o Herval que nascera e crescera na roça. Mudou, também e porém, parte da história – não viera à cidade como escória. Chegou em carroça puxada aos trotes, castigando os lombos do cavalo fracote. Viera para mudar.
Parou a carroça na frente de um enorme edifício no qual funcionava o escritório de uma grande empresa. Sob olhares curiosos da gente que passava, estendeu uma faixa na calçada. Nela, em letras verdes, garrafais, as seguintes palavras:
“A indústria que se arrebente; salve o meio ambiente!”
Não bastasse a faixa, começou a gritar, aos quatro ventos, seu suposto lamento. Por certo não perderia tempo; poria logo as cartas na mesa. Chorou ao recordar as árvores frondosas, o som dos pássaros que nelas cantavam, a beleza das águas cristalinas, o aroma suave das rosas. As matas, as matas, as matas… Oh! Todas devastadas…
Não demorou muito, formou-se ali, ao redor, um aglomerado de pessoas. A coisa ficava melhor, ele pensou; notou que a ideia era boa. Gesticulou, bradou, esbravejou, quase que numa dança frenética. Não se intimidava em fazê-lo; sabia – e bem – que podia contar com a ética. Ninguém tentou tirá-lo de lá, apesar dos protestos. Pelo contrário – ganhou fama em excesso. A mídia logo apareceu, e em poucos minutos, Juvenal, agora Herval, já era praticamente um deus.
Ganhou o apoio de vários migrantes, identificados com a causa. Além deles, mestres e estudantes, todos em prol da revolução verde. A luta não cessaria; não haveria pausa. Faria protestos em rede: protesto na linha do expresso, protesto na praça do bairro, protesto na rua, protesto na lua. Protesto! Protesto na lanchonete, lá dentro: parem com o desmatamento! Com tantos protestos e muitos progressos, Juvenal, que era Herval, enriqueceu. Fundou uma organização, dando-lhe um nome que agradaria a todos, afinal: Brejeiros Rebeldes Organizados e Comprometidos com a Ordem Local e o Interesse Social. No dia da fundação, um marcante pronunciamento:
- Camaradas irmãos, façamos revolução!
O tempo foi passando, três meses, seis meses, dez meses, um ano – e com ele a onda do verde. Não para Juvenal, ou Herval, ou qualquer que fosse seu nome. De rico passou a pobre, mas não desprezou os ideais. Disseram tê-lo visto em uma praça, lá em Prudentópolis, gargalhando e dizendo, ao encarar uma parede:
- Ha! Transformei o mundo num grande brócolis!
Depois, não se viu mais.
Buraco negro
Outubro 26, 2008
Olá! Retornando após um novo e breve período (isso já está se tornando repetitivo, por isso mudarei o próximo termo) de inércia, nos mais variados sentidos possíveis, mas especialmente no que nos interessa, o “literário”. O período dos chagim – feriados judaicos, no caso, Rosh Hashana, Yom Kipur e Sukot – é de profunda reflexão, e é engraçado como nestes dias a “inspiração” dá lugar a outro tipo de sentimento. Bem, é assim mesmo que deve ser…
Para mais sobre os feriados judaicos a que me referi, visite:
http://www.chabad.org.br/datas/index.html
Para a semana (posterior ao último dia de Sukot), um conto – novo. A volta da inspiração e da rotina, mas já no novo ciclo. Uma ótima semana, e um 5.769 bom e doce!
Buraco negro
Adam saía escondido de casa todas as noites. Subia apressadamente a colina no fim da rua, carregando consigo uma mochila com alguns poucos objetos – uma garrafinha com água, um pacote de biscoitos, um binóculo e uma lanterna. Vez ou outra olhava para trás, apreensivo. Não devia ser visto; perderia a graça. Perderia a magia. Naquelas noites, não poderia haver mais ninguém na colina além dele – e de Uri.
Uri era um garoto especial. Diferente. Às vezes, quando Adam chegava ao topo da colina, Uri já estava lá. Ou então aparecia pouco depois, mas nunca se atrasava. Adam não sabia de onde ele vinha, nem sequer onde morava. Não importava. Uri estava sempre ali, todas as noites. Isso sim era importante. Deitavam-se no gramado macio, um ao lado do outro, as mãos sob a cabeça servindo de travesseiro. Sorridentes, punham-se a conversar e a observar, dividindo o binóculo, as milhares de estrelas que enchiam o céu e iluminavam a noite. Adam também dividia com o amigo os biscoitos e a água. Passavam horas ali. E quando Adam descia a colina, com a lanterna acesa na mão (só então ele a acendia), e voltava para casa, já era quase madrugada. Uri descia pelo outro lado, ou dizia que ficaria mais um pouco lá em cima. Ele não precisava de lanterna. E assim era. Sempre.
Os meses, porém, passaram rápidos e vagarosos como as nuvens. Uri já não aparecia todos os dias. Disse que estava doente. Adam, contudo, continuava a subir a colina, embora deixasse de ir um dia ou outro. Deitava-se no gramado, sozinho mesmo, deixando a lanterna acesa ao seu lado por alguns instantes, enquanto comia os biscoitos e bebia a água. Olhava para o céu e notava que algumas das estrelas que gostavam de observar, as mais belas, haviam desaparecido. Já não se via mais seu brilho. A cada noite, mais estrelas sumiam. No lugar delas, pontos negros e vazios. Adam, desapontado, descia a colina, muito mais cedo do que quando tinha a companhia de Uri.
Com os meses, os anos também passaram – poucos, dois, quase três. Uri nunca mais apareceu. Adam não sabia para onde ele fora. Talvez nunca viesse a saber. Entretanto, manteve-se fiel à rotina, ainda que com menos freqüência – duas ou três vezes por semana. Até o dia em que já não havia mais nenhuma estrela no céu. Todas, sem exceção, tinham se apagado. O céu agora era nada mais que um manto escuro, um tanto sombrio. Adam sentiu medo; precisou manter a lanterna acesa durante todo o tempo em que permanecia ali, naquela última noite. Voltou para casa, desiludido. No dia seguinte lhe disseram que as estrelas haviam sido tragadas por um enorme buraco negro. E alguns anos mais tarde ele já se perguntava se algum dia elas realmente haviam estado lá…
Escuridão vermelha
Setembro 17, 2008
Olá! Estive pensando no quanto, definitivamente, a faculdade me servem como inspiração. As aulas de literatura, as quais, vejam só, eu detestava no começo, hoje são as que mais me impulsionam a escrever, graças à leitura bastante profunda de autores que com suas histórias e poemas tanto têm a nos dizer.
Mas não são apenas as aulas que acabam me inspirando. A atmosfera do campus também provoca reações. Durante cinco anos de curso, acreditem, se vê muita coisa – pessoas e pessoas, e coisas -, algumas das quais profundamente irritantes. Tão irritantes que é impossível não falar sobre; mas como não gosto de falar, escrevo. E o conto que vou postar hoje surgiu de uma dessas coisas aliada à leitura de um texto de Engels para uma certa aula de uma certa matéria (igualmente irritante).
Abraços a todos, boa semana e bom fim de semana adiantado!
Escuridão vermelha
João era um rapaz rebelde. Para ele, no bom (e melhor) sentido da palavra. Cursava o terceiro semestre de Filosofia na Federal. Levava pendurado na mala um chaveiro em forma de foice e martelo, vermelho, brilhante, além de um adesivo já gasto, igualmente vermelho, com um desenho do rosto de Che Guevara. Pela manhã, antes de sair de casa, molhava os longos cabelos para deixá-los mais engruvinhados, rebeldes. Na faculdade, já não assistia às aulas; não precisava. Ia a uma ou outra, de vez em quando. Passava manhãs e tardes sentado no pátio, fumando ao lado dos colegas, todos revolucionários, como ele. À noite iam todos ao bar Moscou para beber vodka. Chegava em casa bastante tarde, bem mais vermelho do que quando saía. Casa, aliás, que ele orgulhosa e sinceramente chamava de meia-água de madeira à beira do rio, e na qual vivia com a mãe desde que nascera. Nascera pobre, vivia pobre e morreria pobre, mas revolucionário, obrigado.
Mudaria o país; o mundo! Acabaria com a burguesia; detonaria as mansões. Todos, finalmente, seriam iguais. Pobres como ele. Como na Rússia. Ah! A Rússia… Construiria uma máquina do tempo só para voltar algumas décadas e viajar para o paraíso soviético. O auge! Era seu maior sonho.
Seria um dos promotores da Revolução Brasileira. Mudaria a bandeira nacional: sairia o verde e entraria o vermelho; e no lugar do cruzeiro poria a foice e o martelo. Sairia de casa em casa, cidade em cidade, estado em estado – a pé, se necessário fosse – para pregar o comunismo como a solução do país. Gritaria até ficar rouco: viva a reforma agrária! Viva o MST e seus bonezinhos e bandeiras vermelhas! Um dia, aliás, faria parte de um acampamento sem-terra, só para invadir a propriedade de algum burguês capitalista corrupto. Enfrentaria a polícia ao lado dos camaradas, vestido de vermelho, claro. A luta pelos direitos da classe trabalhadora! Depois encontraria orgulhoso o líder do acampamento, que estaria acompanhando ao longe, de dentro de sua picape Hilux vermelha, a batalha revolucionária e sangrenta dos companheiros.
Antes disso, porém, atingiu outro objetivo. Junto aos camaradas estudantes rebeldes, invadiu o campus da universidade, em protesto ao novo terno importado (e azul!) do reitor. Despedaçou janelas, virou mesas, quebrou computadores, mas tudo muito revolucionariamente, óbvio. Mostraria a eles o poder da revolta popular! Ah, se mostraria! Subiu ao terraço com alguns companheiros para estender, lá de cima, a bela, imponente, gigante bandeira vermelha, feita de seda, cobrindo com ela boa parte da frente do edifício de cinco andares. Lá embaixo, uma dúzia e meia de gatos pingados assistia a cena passivamente, entre eles um menino de rua maltrapilho e faminto que costumava dormir ali no pátio e um velho outrora cabeludo, mas já quase sem cabelos, freqüentador do bar Moscou. Do terraço, João observava orgulhosamente o manto vermelho vestindo o prédio, e estampado nele, em amarelo vivo, o símbolo – a foice e o martelo. Chegava a ficar arrepiado. Pôs-se na beiradinha, ergueu os braços, bradou, protestou, realizado. Não sabia, contudo, o que estava por vir. Estimulado e empolgado com o gesto de João, um dos camaradas levantou espalhafatosamente os braços, e acabou o atingindo sem querer. Desequilibrado, João caiu. O fim?
Não! Resistiria bravamente, como um verdadeiro revolucionário! Agarrou-se ao sagrado estandarte vermelho, mais ou menos na altura do terceiro andar do prédio, exatamente sobre o símbolo dourado. Os camaradas lá em cima prontamente puseram-se a segurar o pavilhão; gritavam para que João agüentasse firme. João gritava para que eles o puxassem, mas, devido ao alvoroço, não ouviram. O desespero perdurou por alguns minutos. Até que, repentinamente, não suportando o peso do corpo do rapaz, a esplendorosa flâmula rubra começou a se rasgar, da esquerda para a direita. Rasgou-se por completo, e João, desafortunado, despencou agarrado a parte do pano, caindo por sobre coroas-de-cristo, repletas de florzinhas vermelhas e espinhos, que ficavam à beira da janela do térreo. As plantas suavizaram a queda, mas seus espinhos pontiagudos penetraram fundo na carne do jovem, por todo seu corpo. Só restou-lhe jazer ali, vendo desaparecer aos poucos a imagem distante dos camaradas lá em cima…
João foi levado para o hospital na BMW azul-royal de um pró-reitor que muito prontamente ofereceu ajuda. Lá, os melhores médicos atenderam-no rapidamente, e alguns poucos minutos depois já estava novamente consciente. Consciente, mas bastante fraco, pálido, João foi informado de que precisaria de uma transfusão de sangue. Imediatamente os companheiros de luta foram convocados para lhe doar sangue, mas estavam todos muito ocupados, uns com uma passeata qualquer em protesto a qualquer coisa, outros com seus cigarros no pátio do campus. A mãe de João já estava prestes a perder as esperanças quando um nobre e conhecido casal, donos de uma famosa rede de supermercados, resolveu, num ato de caridade, fazer uma doação de sangue que serviria exatamente para o pobre rapaz. Sabendo dos fatos, porém, João recusou-se terminantemente a receber em suas veias o sangue azul daqueles burgueses mesquinhos e exploradores. Em suas veias só teria sangue vermelho, rubro como a esplendorosa e inspiradora bandeira soviética! Manteve-se firme em sua posição, a despeito dos protestos dos médicos e das enfermeiras e dos conselhos da mãe. Revolucionário. Sempre. Dois dias depois, já sem forças, não resistiu. Não abriu mais os olhos. Morreu rebelde.
A origem da Origem das espécies
Agosto 25, 2008
Hallo, ghost readers! Mais uma breve (mais breve que anteriormente) ausência, mas finalmente retorno a essa bagunça (ou blog, como queiram).
Hoje posto mais um conto, na verdade outra short short story (mas nem por isso menos short story), tratando de um tema polêmico. Aliás, que me perdoem os veneradores do sagrado macaco, sejam do etéreo ancestral (comum) ou do contemporâneo chimpanzé que dança, pula e faz peraltices no circo. Vale lembrar que, apesar do que possa parecer a princípio, o texto abaixo não tem qualquer referência pejorativa a “nossos” “parentes”. Uma boa semana a todos, símios ou não!

Darwin e seu espelho
A origem da Origem das espécies
Certo dia, Darwin olhou-se no espelho, e ao constatar suas feições simiescas, esperto que era, resolveu propor a idéia de que todo ser humano tem ancestrais símios. Assim, ninguém mais poderia acusá-lo de ser o fruto do casamento de um gorila com uma orangotanga.
Israel 60 Years – e conto
Maio 16, 2008
Nesta semana, o Estado de Israel completou 60 anos de existência e independência. Superando todos os obstáculos que lhe surgiram, desde os primeiros anos até hoje, Israel tem se consolidado como uma democracia, e a despeito dos problemas decorrentes da mesma (que aparecem em qualquer lugar no qual seja adotada), tem destoado totalmente dos outros países da região, seja em avanços científicos, seja no conhecimento, seja na liberdade. E talvez por isso (embora não unicamente por esta razão) desperte tanta animosidade, principal e especialmente nos países vizinhos. Que isso se registre: estou certo de que Israel permanecerá, superará os novos obstáculos que estão para surgir. Em sendo um exemplo de liberdade e respeito, oposto aos países islâmicos que o cercam, receberá sua recompensa. Parabéns, Israel! Mazel tov! E que venham os próximos 60, e 60, até 180 anos. Vida. E liberdade.
Dados os devidos cumprimentos, desejo a todos um ótimo fim de semana, e para não dizer que não postei “nada”, segue um conto, curto, mas ao mesmo tempo bastante abrangente, que aborda quase todos os temas sobre os quais costumo escrever. Abraços!
Sobre (quase) tudo (ou O sumário)
O sangue do jovem Adão foi derramado na terra. Naquela noite, seu corpo ferido caiu sobre a areia do deserto. No nada. Pesar.
Aos meus olhos
Maio 5, 2008
Olá a todos! Após um novo período de ausência retorno com um novo conto. Escolhi este conto em memória da grande tragédia ocorrida décadas atrás. Semana passada tivemos a data “oficial” da lembrança desses eventos, embora para aqueles que os viveram a data oficial é sempre “hoje”. A memória, e só ela, os acompanha todos os dias. Um abraço a todos e uma ótima semana!
Aos meus olhos
Na multidão uniforme eu me vejo. Multidão reduzida, comparada à do início. Não há muitos vovôs, nem vovós, nem crianças. Eu. Caminhamos livres. Livres como? Eu não sabia o que era. Não entendia o que meus olhos viam. E nem poderia. Caminhamos uniformes. Listrados. Eu não. Não havia uniforme para mim, nem número, pois não devia estar aqui agora. Mas vivi. Sobrevivi. Como poucos de muitos. Aos meus olhos caminho solitário.
No caminho, me recordo do dia em que o sonho se desfez, transformando-se em pesadelo. Meus pais. Era dia de Sábado e estávamos todos animados, contentes. Meu pai me colocara em seu colo (embora eu já não fosse mais tão pequeno) e me ensinava as preces matinais. Minha mãe, como de costume, trajava belas vestes, suas melhores, e caminhava sorridente pela casa, descansada. Não podiam imaginar o que viria. Ninguém poderia. Eu penso. Não antes. Quando invadiram minha casa abruptamente, meu pai imaginou. Entendeu. Num ato corajoso e desesperado, lançou-se contra um deles, gritando para que fugíssemos. Mas estávamos paralisados, surpresos. Eu estava. E vi a vida de meu pai sendo derramada na minha frente. Até as lágrimas estavam paralisadas (elas não foram derramadas), e também o grito. Fomos todos levados, espremidos como animais, com e como os muitos outros. Minha mãe, não a vi mais depois que chegamos ao campo. Eu soube mais tarde que ela adoecera e morrera. De tristeza. Como meu pai, deixara de existir. Aos meus olhos viraram estrelas.
No caminho, paro e reflito. Penso em voltar, desejo voltar. Lá estaria mais perto deles, do jeito que fosse. Meu lugar não é aqui, com a multidão. Mas sou empurrado por ela. Me querem. Me carregam uniformemente em seu meio. Não há como voltar. Devo seguir em frente. Para onde? Só me restam as memórias e os devaneios. Aos meus olhos caminho solitário.
No caminho, lembro do meu irmão. Ficamos juntos no campo. Ele me protegia do pesadelo, ou tentava. Acho que via em mim esperança. Ele, um pouco mais velho, entendia tudo. Sabia do provável fim. A esperança, porém. Resistimos bravamente, unidos, por um longo tempo. Aos meus olhos curto demais. Até o dia em que fomos chamados. Ele sabia o porquê. Me escondeu por debaixo dos beliches de madeira duros e sujos, envolvendo-me na coberta rala com a qual nos cobríamos. Não havia espaço para ele; era maior. Piscou para mim, como de costume, me deu um beijo na testa. Saiu pela porta, deixando-me no esconderijo que me havia preparado, só. Para sempre. Ele não voltou mais. A vida se desfaz como os sonhos. A esperança, porém, permanece. Esperança que ele me ensinou a ter. Para eles, os assassinos, se foi como vilão asqueroso e mau. Aos meus olhos era o herói, o mais valente e bondoso.
Caminho no meio da multidão uniforme, sem uniforme. Mas vivo. Sobrevivo. Até quando, não sei. Sem rumo, como quase todos. Aos meus olhos caminho solitário.
Uma ilha
Abril 13, 2008
Outros 1.500 anos depois, retorno ao blog, agora com um conto que já nem lembrava mais que tinha escrito – de fato. Lendo, nem reconheci que era meu, mas prestando atenção aos detalhes constatei que era mesmo. E ao ver a assinatura ao final, não tive mais dúvidas. Não lembro sequer se já havia postado no outro blog, mas se postei, já faz um bom tempo. Sim, estas coisas acontecem.
Abraços a todos, tenham uma ótima semana!
Uma ilha
Levanto. Mais um dia como os outros. Sinto nada. Somente aquele buraco. Angustiante, triste buraco, que me faz sangrar sem perder uma gota de sangue. Tomo meu café e como um pedaço de pão; mas a fome não passa. Escovo os dentes e minha boca continua suja. Tudo que está ali na verdade não está. Só eu.
Escolho as roupas para me vestir – não sei se ponho a blusa azul ou a verde. Tanto faz. Só eu vou notar. Poderia, se quisesse, usar blusa verde-limão, descombinando totalmente com a calça preta do uniforme, e também um pé de tênis de cada cor – um vermelho e um amarelo, por exemplo. Só eu me acharia ridículo. Poderia ir todo de preto e branco, ou cinza – talvez combinasse mais.
Na rua, nada. Que rua? Ela não está aqui. Eu estou. Estou num outro mundo, numa dimensão que não é a minha. Mas qual é a minha? Por que não tem ninguém aqui? A essa hora já deveria haver pelo menos uns poucos… Que hora? Nesse mundo, tudo parece ser mais lento.
Entro pelos grandes portões de ferro. No caminho, algumas árvores. Algumas pessoas. Tudo parece um sonho; enxergo meio embaçado, como se houvesse enormes colunas de fumaça em volta de mim. Terríveis. Sufocantes. Ninguém pode ou quer me ajudar. E eu, não consigo. Não posso ir contra o que sinto.
Na sala, pessoas vão e vêm. Quase me atravessam. Quero tocá-las, mas não consigo. Me sinto como um fantasma, só que sólido. Então eles devem ser os fantasmas. De qualquer forma, não podem me ver. São, como as outras coisas, feitos de sonho. Mas não do meu. Do mundo; deste mundo feito de vapor. Estou fora do lugar?
Volto. Não há ninguém. Faz muito frio. Me sinto cansado. Pego um cobertor e deito no sofá. O frio não passa. Fico horas deitado, mas o cansaço também não passa. Estou cansado de quê? É sempre assim. Todo dia. Todo demorado dia. E o buraco dentro de mim.
Por isso, eu sei, vai chegar o momento em que os meus dias vão se acabar, ou que o dolorido buraco vai me por um fim. Talvez seja o destino que escolhi para mim; que me foi escolhido. Mas quem sabe, algum dia, eu não encontre minha cura, e possa transformar esse mundo todo, ou boa parte dele, em um mundo de verdade. Enquanto isso, sigo caminhando, atravessando as paredes, as pessoas, e os limites do mundo de sonho, tão lento e tão frio. Só eu o percebo. Eu, sozinho.
Cidade-planeta
Março 28, 2008
Olá! Após uma semana especial (devido a uma festa especial), retorno à “atividade” com um conto (ou seria crônica?) para comemorar uma data especial. Trata-se do aniversário de alguém (especial) que eu conheço praticamente desde que nasci. Amanhã, dia 29 de março. Um abraço a todos! Mazel tov!
Cidade-planeta
Caminho pelo calçadão preto e branco, meditativo como sempre, mas um pouco mais atento do que de costume. Observo a multidão uniforme e solitária de pessoas passando por mim. As pessoas daqui não são como as dos outros lugares. As pessoas daqui não me olham no rosto; não me cumprimentam.
Espere! Eu também não o faço…
Dou uma olhada no céu e só vejo nuvens cinzentas. Nuvens sombrias e tristes. Nada de sol. Nem deu as caras. O sol daqui também não é como o dos outros. O sol daqui não é, por exemplo, como o de Atenas. Se os gregos tivessem vivido aqui talvez não o temessem tanto, porque o sol daqui, pobre coitado, não vê quase nada. Passa a maior parte do tempo escondido atrás das nuvens, mais fortes. Como não pode vencê-las, dorme.
Vou abaixando a cabeça e noto que os prédios daqui também são diferentes. Diferentemente quadrados e diferentemente cinzentos. Pálidos. Tristes. Frios. Como o largo prédio da esquina, cheio de janelas, pelo qual passo. Este ainda se alegra em certa época do ano, mas depois volta à tristeza habitual.
Adentro na praça, que se confunde com o calçadão. As árvores são quase tão cerradas quanto as de uma floresta. Como as pessoas. Ouço os pássaros cantando; preparam-se para o descanso. Os pássaros daqui, de igual modo, não são como os dos outros (me lembro de ter ouvido algo parecido). Os pássaros daqui entoam melodias tristes, porém belas. Talvez apenas reflitam as pessoas, as nuvens, o prédio, a praça…
Este lugar realmente não é como os outros lugares. Triste e solitário, como as pessoas, as nuvens, os prédios, os pássaros; e por isso mesmo unicamente belo. Começa a escurecer. Hora de voltar. Pra quê? Deito no banco da praça e me ajeito por ali mesmo. Afinal não são todos os lugares que fazem com que eu me sinta em casa…
Amigo Único
Março 7, 2008
Olá! Para essa semana um continho simples (e humilde!) que escrevi já há algum tempo, alguns meses pelo menos. E de fato as aulas, já nos primeiros dias, vêm me dando certa inspiração, e por isso em breve devo aparecer com textos novos..
Abraços a todos!
Amigo Único
Benjamin não tinha muitos amigos. Só André. Era só com ele que conversava. Talvez porque André fosse o único que o entendia. Acordava cedo, e lá estava André.
- Quer café? – Benjamin perguntava.
- Sim, obrigado. – André respondia.
Servia-lhe um pouco de café.
- Quer pão?
- Não, obrigado. – Geralmente não comia pela manhã.
Benjamin ia para a escola. André não podia ir. Ainda não estava na idade, a mãe dizia. Benjamin voltava e corria dar um abraço em André. A saudade era grande.
- Vamos almoçar?
- Talvez. – Na hora do almoço isso significava “sim”. Era tímido.
Passavam as tardes inteiras juntos. Brincavam de tudo que podiam.
- Vamos brincar de bombeiro?
- Não sei…
- Que tal esconde-esconde?
- O que você acha? – André respondia às vezes com outra pergunta.
- Acho melhor não… Então de circo?
- Sim!
- Eu vou ser o mágico e você o palhaço!
Era a brincadeira mais divertida. Benjamin achava que era a preferida de André. Brincavam por horas, até anoitecer. Até se cansarem.
- Tá cansado?
- Não!
Mas estava. Benjamin sabia disso. Tinha de deixá-lo descansar. Do contrário, não teria com quem brincar e conversar no dia seguinte. Abraçava forte o amigo e, cuidadosamente, o colocava de volta na estante ao lado da cama, em meio aos brinquedos. Depois ia se deitar. Antes que pegasse no sono, dizia:
- Boa noite, André. Durma bem.
No outro dia podia jurar ter ouvido a voz doce do ursinho desejando-lhe também uma boa noite, e que dormisse com os anjos.
A Incapacidade de ser verdadeiro
Fevereiro 26, 2008
Olá a todos os ghosts! Nessa semana as aulas recomeçam (e a inspiração também!), e com isso, por incrível que pareça, devo estar postando mais no blog. Pra essa semana, um ótimo conto de Carlos Drummond de Andrade, publicado na coletânea Histórias para o rei, seleção de Luzia de Maria, publicada pela Record. Esse conto é divertido e diz muito… Abraço! E com vocês… Drummond!
A Incapacidade de ser verdadeiro
Paulo tinha fama de mentiroso. Um dia chegou em casa dizendo que vira no campo dois dragões-da-independência cuspindo fogo e lendo fotonovelas.
A mãe botou-o de castigo, mas na semana seguinte ele veio contando que caíra no pátio da escola um pedaço de lua, todo cheio de buraquinhos, feito queijo, e ele provou e tinha gosto de queijo. Desta vez Paulo não só ficou sem sobremesa como foi proibido de jogar futebol durante quinze dias.
Quando o menino voltou falando que todas as borboletas da Terra passaram pela chácara de Siá Elpídia e queriam formar um tapete voador para transportá-lo ao sétimo céu, a mãe decidiu levá-lo ao médico. Após o exame, o Dr. Epaminondas abanou a cabeça:
- Não há nada a fazer, Dona Coló. Este menino é mesmo um caso de poesia.