Noite finita

jacob galon

Arquivo para o dia “janeiro 20, 2012”

As cores da Pátria

Olá, ghost readers!

De volta das maravilhosas férias, durante as quais tive um vislumbre de como seria se pudesse viver exclusivamente dos textos e da leitura (utopia de muitos aventureiros das letras neste país), é hora de retomar as atividades. Dentre elas, postar algo neste movimentadíssimo blog.

Para hoje, um conto cuja ideia surgiu ainda antes que eu saísse de férias, mas que só começou a ser escrito há alguns dias. A despeito do que possa parecer, trata-se de um texto que me exigiu certo empenho; na verdade, provavelmente foi o texto no qual mais dispensei tempo trabalhando desde que comecei a arriscar algumas linhas. É um experimento, e por isso está longe de ter sido definitivamente terminado. É certo que ainda devo trabalhar muito nele até uma próxima eventual publicação (não virtual). Por ora, posto aqui sua primeira versão, com o único intuito de não deixar o blog mais uma vez jogado às traças — elas são perigosas; quando se percebe, os buracos já são grandes demais para serem restaurados. A propósito, como obviamente já notaram, o blog está de cara nova, com letras maiores para facilitar a leitura. Um ótimo fim de semana a todos!

 

As cores da Pátria

 

O som dos gritos da torcida ecoava. A partida estava para começar. As bandeiras agitavam-se, a multidão bradava coros em uníssono. Então eles começaram a entrar em campo, em fila, de mãos dadas, e os olhos de Tiago brilhavam enquanto acompanhava tudo isso diante da imagem pálida da pequena TV a cores que jazia sobre uma estantezinha simples toda enferrujada, que por sua vez ocupava quase um terço do espaço da salinha da humilde casa de madeira, um cubículo com não mais que três cômodos no qual viviam Tiago e seus pais, numa inoportuna área de periferia próxima ao centro da grande cidade.

 
— Tiago, abaixa essa televisão! Não precisa deixar tão alto! — a mãe berrou da cozinha, o cômodo ao lado.

 
— Tá bom… — ele respondeu, sem desviar os olhos da tela, enquanto apertava o botão para abaixar o volume.

 
O pai já devia estar chegando e provavelmente também iria querer acompanhar o jogo, e então ele aumentaria o volume novamente. Tiago gostava de deixá-lo bem alto, porque assim sentia como se estivesse lá dentro do estádio, vibrando com a torcida a cada lance. Nunca tinha ido a um estádio, muito menos para ver um jogo da seleção. Os ingressos eram muito caros, o pai dizia, não podiam se dar ao luxo de gastar tanto por tão pouco. Mas não era pouco, mas o pai não entendia. Não.

 
Estavam cantando o hino agora e Tiago cantava junto com orgulho e com a mão em cima do coração.

 
Bateram na porta. Não era hora de visitas, mas a mãe mandou que ele fosse abrir a porta, pois estava trancada, e ele foi. Era o pai, todo esbaforido e um pouco pálido. Ele entrou rápido e foi até a esposa e a abraçou; os olhos, tristes… Então mandou Tiago guardar suas coisas na mochila o mais rápido que pudesse. Tiago não entendeu, mas fez o que o pai tinha lhe pedido. Colocou na mochila os dois carrinhos, a roupa de dormir e o mais importante, a camisa velha da seleção, as cores da Pátria como dizia o Tio Guto.

 
De repente, a porta se abriu num estrondo e quase caiu, ficou pendurada só por uma dobradiça. Dois guardas entraram na casa com cassetetes nas mãos e com caras não muito boas. Eles pareciam zangados, e estavam.

 
— Vamo, tá na hora de se mandarem daqui! Vamo, vamo, vamo, que a gente tem pressa! — um dos guardas disse, batendo com o cassetete na parede.

 
— Espera, a gente só tá terminando de pegar umas coisas…

 
O pai não conseguiu terminar de falar, pois o guarda acertou a cabeça dele com o cassetete e gritou:

 
— Cala a boca! Ninguém te perguntou nada, só tamo mandando sair. E é pra ontem! Vamo, antes que eu perca minha paciência!

 
O pai ficou com a mão na cabeça por um tempo, mas logo puxou a mãe e Tiago pelo braço para saírem da casa. A mãe estava chorando. Tiago ficou olhando para a televisão; ela continuava ligada, a tela mostrando o jogo que finalmente tinha começado. Não deviam desligá-la antes de sair? O guarda bateu com o cassetete na TV e ela caiu da estantinha. Caiu no chão e a tela quebrou, e Tiago viu uma faísca lá dentro. Por que tinham que sair daquele jeito? Por que os guardas estavam tão bravos? Por que queriam que eles saíssem da casa? Por que tinham quebrado a televisão? Por que tinham batido no pai?

 
— Tá doendo, pai? — Tiago perguntou, vendo o pai colocar a mão na cabeça vez ou outra enquanto andavam rápido para longe da casa.

 
— Só um pouco, filho. Só um pouco…

 
Tiago achou que estava. Se tivessem batido na cabeça dele daquele jeito, ele com certeza estaria chorando até agora. Tinha outros guardas nas outras casas também, gritando e colocando os vizinhos para fora delas a pontapés e cassetetes. Tinha mulheres e outras crianças chorando quando Tiago e seus pais andavam pela rua onde moravam. Tinha um homem, o Seu Paulo, um velhinho que morava quase lá no finzinho da rua, com a cabeça machucada e escorrendo sangue. A camisa dele estava suja de sangue e de terra e o sangue pingava até no chão.

 
Por sorte o Tio Guto tinha espaço na casa dele e então eles poderiam ficar lá pelo menos por um tempo. Isso porque não podiam mais voltar para a casa, o pai disse. Nunca mais. Tiago não sabia por que, mas decidiu que não ia perguntar. Sentiria saudade da casa e da televisão onde assistia os jogos.

 
O tempo foi passando, passando… Alguns meses passaram, mas Tiago não esqueceu da casa. Queria voltar lá e ver ela, um pouquinho que fosse, e se pudesse, entrar nela de novo. É claro que o pai não deixava. Por isso, certo dia Tiago resolveu que ia escondido. Era dia de jogo, a seleção estava na cidade, iam inaugurar o novo estádio. Tiago já sabia que não poderia ir ao jogo, mas aproveitaria a agitação para sair e voltar sem que os pais e os tios percebessem. Era fácil, só precisava ter cuidado.

 
Pegou a bicicleta que era do primo e foi. Conhecia muito bem o caminho, não podia ter esquecido, não assim tão fácil. Na rua um amontoado de pessoas, todas com as cores da Pátria, com cornetas e com bandeiras, e com perucas coloridas também, todas na direção do velho bairro, da velha casa. Tiago não sabia por que as pessoas estavam indo para lá, mas não se importava com isso, pois só o que queria era ver a casa.

 
Seguiu com a bicicleta devagar e quando já estava próximo levou um susto. A vila não existia mais. No lugar dela um conjunto de prédios, um shopping enorme e um estádio maior ainda. Desceu da bicicleta perto de uma das entradas do estádio (ela ficava bem onde antes morava o Seu Paulo) e ficou olhando boquiaberto para aquela construção gigante. A casa também não existia mais. A casa ficava onde agora devia ser o círculo central do campo de futebol, bem no meio. É claro que ela não estava mais lá, mas Tiago queria ao menos chegar o mais perto que pudesse de onde um dia a casa tinha existido. Puxando a bicicleta devagarinho, ele foi para perto do portão de entrada. Estava cheio de pessoas passando por ali e elas tinham bandeiras, cornetas e perucas coloridas com as cores da Pátria, e tinha alguns guardas também, parados do lado das roletas. Um dos guardas parou Tiago quando ele se aproximava com a bicicleta.

 
— Ei, moleque! Cê tem ingresso? — o guarda perguntou.

 
Tiago balançou a cabeça.

 
— Então não pode entrar. Dá o fora daqui. — o guarda mandou e Tiago obedeceu, porque não queria que batessem na sua cabeça como tinham batido na do pai, ou como tinham batido no Seu Paulo.

 
Saiu arrastando a bicicleta ainda mais devagar. Parou na beira da rua e olhou para trás, para o estádio. As pessoas já estavam cantando lá dentro, todas animadas. Logo a seleção iria entrar em campo. Tiago deu as costas e montou na bicicleta, e seguiu seu rumo de volta para a casa do Tio Guto.

 
Ele estava já a algumas quadras do estádio, mas ainda pôde ouvir o hino nacional tocando e a torcida cantando em coro. A canção da Pátria. E as cores também.

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