Noite finita

jacob galon

Frida

Olá, ghost readers! Sim, estou vivo – e bem! –, por incrível que pareça. A ausência, desta vez (ou novamente; como preferirem), se deve mais ao fato de não ter tempo – e força – suficiente(s) pra me dedicar à complexamente simples tarefa de escrever. As ideias estão lá, pululando em minha mente, agitadiças. Faltam-me algumas horas a mais pra me sentar, colocá-las no papel (seja o real ou o virtual) e, principalmente, trabalhá-las. Uma pena.

Ainda assim, uma das ideias pululantes tanto cresceu que acabou forçando minha cachola a colocá-la pra fora. O que foi bom, afinal, aqui estou, movimentando o Noite Finita novamente, após dois meses de glacial inércia.

Enfim, sem mais delongas, vamos ao texto. Desejo a todos um ótimo dezembro. E um excelente 2012, caso eu não consiga voltar aqui antes da virada do ano. Aos afortunados, como eu, boas férias. Divirtam-se, crianças! ;)

 

 

Frida

 

Era um pedaço de papel levemente amassado. Em um poste de concreto um tanto encardido. E estava bem na quadra do shopping. Na avenida principal. “Isso certamente quer dizer algo”, ele concluiu. Queria. Em letras garrafais, pretas, contrastando com o fundo branco, as seguintes palavras:

“FAÇO TEU AMOR CAIR AOS TEUS PÉS

EM ATÉ SETE DIAS

LIGA ME AGORA, FONE 9999-6669”

Sim, era disso mesmo que precisava. Como não vira antes? Por certo fora colocado ali naquele dia. O importante era que não podia perder aquela oportunidade, que talvez fosse única. Frida. Fridinha. Fridosa. Zigfrida, a mulher da sua vida, como gostava de dizer. A rima, então, digna de um verdadeiro poeta apaixonado.

Namorava o papel diante de seus olhos como se ele fosse a própria amada. O tique-taque do relógio de pulso que lhe cobria quase todo o antebraço. Os motoristas rasgando a avenida com seus carros, ávidos por chegarem às suas casas após um cansativo dia de trabalho. Um som agudo, estridente. Não eram sinos. Buzina. Uma pancada às costas. Um ciclista apressado e sem freio. E Souza caiu. Caiu de amores por Frida.

Foi parar no posto médico. Nada sério. Um arranhão aqui, outro ali. Frida não foi visitá-lo. Nem no posto, nem em casa. Não seria assim para sempre. Por sorte, namorara tanto o pedaço de papel no poste que se lembrava perfeitamente do número. Memória fotográfica. Tirou o fone do gancho e discou. Três toques. Quatro. Sorriu olhando para a imagem no porta-retratos de plástico colocado sobre a escrivaninha, que o mostrava aos pés do Cristo Redentor. Súbito, uma voz encorpada, feminina, do outro lado da linha.

– Madamme Zorahydeh Serviços Esotéricos, boa noite.

Trêmulo, agendou a consulta para o dia seguinte. Nunca pensara que teria de apelar a algo assim. Mas para quem havia comprado um diploma técnico em design gráfico, aquilo não era nada. Foi se deitar pensando em Frida. Sua Fridoca… Quem sabe já não estivesse na companhia dela na próxima noite?

Saiu do trabalho com pressa, alguns minutos mais cedo, para garantir que não chegaria atrasado ao endereço informado pela mulher. Felizmente não era tão longe. Uma casa comum, de madeira, com um jardinzinho na frente adornado com estatuetas de duendes e afins. Tocou a campainha estridente. Uma moça magricela abriu a porta e, sem colocar os pés para fora, pôs-se a encará-lo, esperando que dissesse algo.

– Por favor, a Madame Zoraide se encontra? Eu… marquei uma consulta pra esse horário.

A moça arqueou a sobrancelha esquerda. Escancarou a porta e deu dois passos à frente, sinalizando para que Souza abrisse o portão e entrasse.

– É Madamme Zorahydeh, rapaz. E falas com a própria. – ela respondeu, a mesma voz forte que ele ouvira ao telefone na noite anterior.

Resignado, entrou. A sala da casa era o consultório, iluminado por uma fraca lâmpada e com todas as janelas fechadas. Uma mesa redonda ao centro, coberta por uma toalha vermelha de seda. Sobre ela, uma suposta bola de cristal e cartas de tarô. Pendendo do teto aqui e ali, penduricalhos com motivos astrológicos. À direita, uma estante na qual jaziam um aparelho de telefone que um dia devia ter sido branco e uma TV de 20 polegadas. À esquerda, quase colado à mesa, um sofá com alguns furos no tecido verde com flores amarelas. Nele, jogada a um canto, uma rechonchuda almofada em forma de coração, toda em pelúcia vermelha, com um quase imperceptível rasgo do lado esquerdo. Oh, Frida…

– E então? – a mulher grunhiu, impaciente, já sentada a seu lado da mesa. Sobre a bola de cristal, as mãos, cujas unhas, compridíssimas, estavam pintadas em um vermelho escarlate já em parte descascado.

Souza sentou-se. Precisava se fazer claro. Não estava ali para perder tempo. Queria algo potente e que funcionasse de pronto.

– Uma mulher. Ela nem me dá bola, entende?

– O nome dela…? – ela pegou uma folha de papel amarrotada e uma caneta Bic azul.

– Frida. Zigfrida. Minha Fridegosa…

Ignorou o olhar da mulher. Não importava o que os outros achassem dele. Só queria Frida.

– Ela é daqui mesmo? – perguntava e anotava as respostas de Souza no papel.

– É. Quer dizer, ela mora aqui. Mas é carioca.

– Conheceste ela lá?

– Não, aqui mesmo. Nunca fui pro Rio.

– Certo…

Madamme Zorahydeh terminou de escrever e voltou a encarar Souza, desta vez com um olhar hipnotizante. E assim ficou por alguns segundos. Ele, calado. Inebriado, talvez, com o aroma híbrido de madeira velha e incenso.

– Vejo que ela tem alguém próximo. – ela enfim prosseguiu, num tom enigmático – É casada?

– Não. Também não tem namorado. Mas tem um pretendente.

– Huum… Qual o nome?

– Adalberto.

Ela anotou o nome no canto inferior da folha. Depois, num gesto rústico, quase místico, rasgou com as mãos a parte na qual escrevera o nome, destacando-a. Levantou-se e caminhou até a estante, abrindo uma das gavetas no centro do móvel e retirando de lá um frasco com um líquido de um rubro tão forte que se destacava à meia-luz. Tomou o pedaço de papel com o nome de Adalberto e o colou com fita adesiva embaixo do frasco.

– Eis a solução para o teu problema. Poção do amor de Madamme Zorahydeh.

Souza tomou o frasco da mão da mulher e o analisou. Parecia mesmo uma poção do amor. Abriu a tampa para sentir o suave aroma. O odor de vinagre, enxofre e bicho morto logo irritou suas delicadas narinas.

– Argh! Do que isso é feito? A Fridoquinha vai ter que beber?

– É o ideal. Quanto a minhas fórmulas, não cabe a ti conhecer. Apenas faz o que te digo: põe o frasco na mesa dela sem que ela te veja e não retira o nome do teu rival do fundo do frasco. Se ela achar que é perfume e passar um bocado no pescoço, já funciona.

Ele meneou a cabeça e guardou o frasco cuidadosamente na mala. Estava satisfeito. Já dava a vitória como certa. A mulher o encarou novamente com a expressão de impaciência.

– São 250 contos, rapaz. Cinquenta pela consulta, duzentos pela poção.

– Tudo isso? – Souza arregalou os olhos.

Ela levantou os ombros. Era a crise, o que se podia fazer.

– Se quiseres posso te vender só meia poção, por 120. Mas aí já não garanto que dê resultado…

– Não, não, eu pago os 250. Pago qualquer valor pelo amor da Fridazinha…

Sacou a carteira e pagou à vista, com gosto. Era um investimento. E que investimento. Levou também o coração de pelúcia, por mais cinquenta contos. Frideca iria adorar ganhar aquilo quando enfim fosse sua. Seria a cereja do topo. Então viveriam uma vida de aventuras e de muita paixão; seriam felizes para sempre. Ou ao menos até que o desquite os separasse. Por via das dúvidas, manteria bem guardado na carteira o contato do Dr. Orlando, seu advogado, o mesmo que providenciara o diploma.

Desfrutar do presente, porém. O futuro, que ficasse para depois. À noite, Frida estaria lá esperando por ele…

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2 thoughts on “Frida

  1. Inocentemente amante. Cegamente maltratado. Inconsequentemente enganado. Tolamente sonhado. Realmente inocentado.

  2. Coitado dele, tio! :/

    Mas gostei do conto!

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