Noite finita

jacob galon

Brasil

Olá, ghost readers. Uma crônica curta e simples para encerrar o mês de setembro (apropriadamente, sendo este o mês da independência do Brasil) e começar o ano judaico de 5772 com alguma reflexão. Um ótimo fim de semana (e um ano bom e doce) a todos!

 

Brasil

 

 

Já por umas dezenas de vezes vi algo interessante em alguns carros por aí (especialmente, por algum motivo desconhecido e sobre o qual não cabe especular aqui, nos carros-fortes que abastecem os bancos da cidade). É algo simples, mas curioso, que dialoga com épocas passadas: um adesivo no qual jaz uma singela bandeira nacional, disposta solenemente sobre um fundo branco, trazendo abaixo de si a seguinte inscrição: “BRASIL: AME-O”. Os mais velhos, por certo, hão de se recordar que o slogan remonta a outros tempos, lá aos idos de 1964. Independente disso, é preciso considerar que nesta frase ingênua ainda propagandeada, principalmente, pelos carros-fortes, encontra-se elipsado um advérbio de modo. Como dizem por aí, o amor é cego.

Quem ama não vê defeitos? Verdade para alguns. Quem ama não reclama (e prevejo o surgimento de adesivos com esta frase colocada debaixo da bandeira logo, logo). Ame e tenha seus direitos cerceados – lembre-se: a Constituição é algo simbólico; não deve ser tomada de forma literal. Os deveres, porém, você há de cumprir. Não vote e seja multado. Recuse-se a servir o exército e pague multa; se não puder pagar, vá para a cadeia e passe lá uns bons anos de sua vida. Faça escândalo no postinho de saúde quando seu bebê não for atendido e pague (de novo!) multa, ou passe mais alguns anos no xilindró. Ame e dê boa parte de seu suado salário para o pagamento de impostos, impostos estes que garantirão a manutenção da singela mansão do deputado, lá em Angra dos Reis, e a fazenda do senador no interior de Goiás. Ame e contribua, contribua e contribua a vida toda, mas não receba em troca de sua contribuição o que lhe é prometido, o que lhe dizem que se financia com ela. Ame e veja seu filho morrer num acidente de carro na estrada, naquela que está cheinha de buracos e sem sinalização alguma. Ame e pague aluguel pelo resto de sua vida, ciente, é claro, dos indispensáveis reajustes anuais, ou então financie sua casa própria e deva eternamente ao governo e/ou aos bancos, correndo o risco de perder tudo – a casa e os investimentos já feitos – caso deixe de pagar as parcelas. Ame e veja os itens necessários à sua sobrevivência se tornarem cada vez mais caros, ao passo que seu salário decresce diante deles. Ame e consiga, com muito esforço e após anos de estudo, trabalho e dedicação, adquirir alguma coisa que lhe traga conforto, para ser destituído poucos depois desta mesma coisa quando um qualquer lhe puser um revólver na cabeça e a tomar de você, saindo por aí numa boa, sem nunca mais ser visto. Ame e envelheça, e quando sofrer um derrame procure o hospital público, aquele mesmo, financiado (como dizem) pelo suor de seu trabalho, trabalho da vida toda. Ame e morra deitado no chão sujo de um corredor qualquer do hospital, esperando pelo atendimento que nunca virá. Ame e, depois de morto, faça sua família desembolsar uma boa quantia, da qual ela não disporá, para adquirir um minúsculo pedaço de terra a fim de enterrá-lo.

Diante disso, outro slogan criado pela ditadura na década de 1960, por mais absurdo que possa parecer, me soa bem mais agradável. “Brasil: ame-o ou deixe-o”. Embora, naquele contexto, pudesse ser usado de outra maneira, hoje funcionaria muito bem, pois neste caso há realmente uma alternativa. Assim sendo, meus caros, quando a oportunidade surgisse, eu escolheria, com prazer, a segunda opção. Brasil: tô fora.

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3 thoughts on “Brasil

  1. WOW, Tio!

    Falou tudo.

    Uma ótima reflexão – e com toda a certeza – é a mais pura verdade do nosso grande, porém pequeno, país.

    Gostei muito – mesmo! Acho que você tem talento para esses artigos críticos também. =)

  2. Nossa Yaacov…isso deveria ser lido nos grandes telejornais, publicado nas revistas e ser interpretado em monólogo nos grandes teatros…mas, apesar de tudo, amo o Brasil, minha terra…cumpro meus deveres de cidadã e sou grata ao D’us de Israel que nos tem sustentado porque é Fiel e justo. Odeio a injustiça, a infidelidade, a corrupção, o silêncio e a ignorância que leva os pobres a sucumbirem em sua pobreza e a ignorância que leva os ricos a não repartirem do seu pão. IGNORÂNCIA=AUSÊNCIA DE D’US, vidas vazias sem lei, sem Torá. Shabat Shalom querido!!!

  3. Me lembra de voltar aqui?

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