Brócolis
Outubro 9, 2009
Olá, ghost readers! Ainda em período de semi-inatividade (provocado por alguns diversos e relevantes fatores) e tentando emergir de um hiatus criativo, têm sido raros os momentos em que sento – paro e penso – para escrever algo, e por isso o blog segue às moscas (e é possível que assim permaneça por mais algum tempo).
Certo, talvez esse breve depoimento ficasse melhor no Twitter – se eu tivesse um. Por falar no dito cujo, aliás, reparei que ele tem se transformado num polêmico troca-farpas online. Celebridades – atores, cantores, esportistas e companhia – utilizam-se do já consagrado Twitter, um espaço na web a ser aproveitado para algo que se assemelha a um diário (mas com frases ou textos curtos, diferentemente de um blog), para, entre outros, trocar afrontas, fazer críticas veladas (ou não tão veladas) e dizer o que pensam (?), independente do que seja, sem qualquer tipo de censura. E quando brota um arranca-rabo online entre celebridades, algo já bastante comum, o povo faz festa. Sim, o povo, a ralé, a plebe ignara (permita-me a apropriação do termo, caro diretor). Afinal, quem não curte um bom bate-boca, ainda mais envolvendo famosos, mesmo que seja na net? E quanto mais vulgar, melhor. É como brócolis – o sal faz toda diferença (devo supor).
E é dele, do brócolis, não do Twitter, que trata um dos contos que escrevi. Não há realmente uma relação clara entre ele e o desabafo acima, mas sei que lá no fundo, talvez bem no fundo, todas as coisas estão interligadas. Basta refletir um pouco. Um ótimo fim de semana – e feriado (graças!) – a todos!
Brócolis, a revolução verde
Herval era homem do campo, trabalhador rural. Nascera no cafezal; fora criado entre os milharais. Desde cedo, com o pai, colhia os feixes dourados do trigo; alfaces esmeralda; abóboras gigantes. Tinha tudo o que queria até que, num instante, veio o triste dia. A plantação secou; lucro já não rendia. Cansado da vida, Herval proclamou:
- Vou para a cidade, buscar alegria. Digo, com sinceridade: o tempo do campo já passou.
Arrumou as trouxas e foi, uma lágrima nos olhos ao despedir-se do boi. Não mais o veria. Sem olhar para trás, rumou com esperança em direção à cidade cinzenta, ainda que assustado, tal qual uma criança. Apesar do tormento, a chance de um recomeço. Herval, sorria!
Foi trabalhar numa fábrica de embalagens, perído integral. Para dormir, um canto qualquer numa estalagem. Achou que, a princípio, não lhe faria mal. Os meses, porém, foram passando e Herval se cansando – a vida na cidade não era como no campo. Queria voltar, mas já não podia. O salário era parco e só pagava a moradia. Cansado da vida e farto da vista, da cor, do som, do gosto da cidade, adoecido, Herval morreu.
- Morreu?? Como assim? O que aconteceu? – exclamaram os colegas de trabalho, espantados.
- Antes ele do que eu… – sussurrou Juvenal, dentre eles o mais lustroso, o que a notícia havia dado.
Fora ele mesmo, Juvenal, quem encontrara morto o pobre Herval. Um susto, de início; passou rápido. Tomou a carteira do bolso do falecido e saiu, sem deixar nenhum indício. Não ficou contrariado ao não achar nenhum centavo; esperto que era, sabia que uma chance lhe havia surgido.
- Vou mudar de vida! Quero ver quem se mete comigo!
Mudou de cidade. E de nome: não era mais Juvenal; agora era Herval. Não só no nome; era ele próprio o Herval que nascera e crescera na roça. Mudou, também e porém, parte da história – não viera à cidade como escória. Chegou em carroça puxada aos trotes, castigando os lombos do cavalo fracote. Viera para mudar.
Parou a carroça na frente de um enorme edifício no qual funcionava o escritório de uma grande empresa. Sob olhares curiosos da gente que passava, estendeu uma faixa na calçada. Nela, em letras verdes, garrafais, as seguintes palavras:
“A indústria que se arrebente; salve o meio ambiente!”
Não bastasse a faixa, começou a gritar, aos quatro ventos, seu suposto lamento. Por certo não perderia tempo; poria logo as cartas na mesa. Chorou ao recordar as árvores frondosas, o som dos pássaros que nelas cantavam, a beleza das águas cristalinas, o aroma suave das rosas. As matas, as matas, as matas… Oh! Todas devastadas…
Não demorou muito, formou-se ali, ao redor, um aglomerado de pessoas. A coisa ficava melhor, ele pensou; notou que a ideia era boa. Gesticulou, bradou, esbravejou, quase que numa dança frenética. Não se intimidava em fazê-lo; sabia – e bem – que podia contar com a ética. Ninguém tentou tirá-lo de lá, apesar dos protestos. Pelo contrário – ganhou fama em excesso. A mídia logo apareceu, e em poucos minutos, Juvenal, agora Herval, já era praticamente um deus.
Ganhou o apoio de vários migrantes, identificados com a causa. Além deles, mestres e estudantes, todos em prol da revolução verde. A luta não cessaria; não haveria pausa. Faria protestos em rede: protesto na linha do expresso, protesto na praça do bairro, protesto na rua, protesto na lua. Protesto! Protesto na lanchonete, lá dentro: parem com o desmatamento! Com tantos protestos e muitos progressos, Juvenal, que era Herval, enriqueceu. Fundou uma organização, dando-lhe um nome que agradaria a todos, afinal: Brejeiros Rebeldes Organizados e Comprometidos com a Ordem Local e o Interesse Social. No dia da fundação, um marcante pronunciamento:
- Camaradas irmãos, façamos revolução!
O tempo foi passando, três meses, seis meses, dez meses, um ano – e com ele a onda do verde. Não para Juvenal, ou Herval, ou qualquer que fosse seu nome. De rico passou a pobre, mas não desprezou os ideais. Disseram tê-lo visto em uma praça, lá em Prudentópolis, gargalhando e dizendo, ao encarar uma parede:
- Ha! Transformei o mundo num grande brócolis!
Depois, não se viu mais.