Buraco negro
Outubro 26, 2008
Olá! Retornando após um novo e breve período (isso já está se tornando repetitivo, por isso mudarei o próximo termo) de inércia, nos mais variados sentidos possíveis, mas especialmente no que nos interessa, o “literário”. O período dos chagim – feriados judaicos, no caso, Rosh Hashana, Yom Kipur e Sukot – é de profunda reflexão, e é engraçado como nestes dias a “inspiração” dá lugar a outro tipo de sentimento. Bem, é assim mesmo que deve ser…
Para mais sobre os feriados judaicos a que me referi, visite:
http://www.chabad.org.br/datas/index.html
Para a semana (posterior ao último dia de Sukot), um conto – novo. A volta da inspiração e da rotina, mas já no novo ciclo. Uma ótima semana, e um 5.769 bom e doce!
Buraco negro
Adam saía escondido de casa todas as noites. Subia apressadamente a colina no fim da rua, carregando consigo uma mochila com alguns poucos objetos – uma garrafinha com água, um pacote de biscoitos, um binóculo e uma lanterna. Vez ou outra olhava para trás, apreensivo. Não devia ser visto; perderia a graça. Perderia a magia. Naquelas noites, não poderia haver mais ninguém na colina além dele – e de Uri.
Uri era um garoto especial. Diferente. Às vezes, quando Adam chegava ao topo da colina, Uri já estava lá. Ou então aparecia pouco depois, mas nunca se atrasava. Adam não sabia de onde ele vinha, nem sequer onde morava. Não importava. Uri estava sempre ali, todas as noites. Isso sim era importante. Deitavam-se no gramado macio, um ao lado do outro, as mãos sob a cabeça servindo de travesseiro. Sorridentes, punham-se a conversar e a observar, dividindo o binóculo, as milhares de estrelas que enchiam o céu e iluminavam a noite. Adam também dividia com o amigo os biscoitos e a água. Passavam horas ali. E quando Adam descia a colina, com a lanterna acesa na mão (só então ele a acendia), e voltava para casa, já era quase madrugada. Uri descia pelo outro lado, ou dizia que ficaria mais um pouco lá em cima. Ele não precisava de lanterna. E assim era. Sempre.
Os meses, porém, passaram rápidos e vagarosos como as nuvens. Uri já não aparecia todos os dias. Disse que estava doente. Adam, contudo, continuava a subir a colina, embora deixasse de ir um dia ou outro. Deitava-se no gramado, sozinho mesmo, deixando a lanterna acesa ao seu lado por alguns instantes, enquanto comia os biscoitos e bebia a água. Olhava para o céu e notava que algumas das estrelas que gostavam de observar, as mais belas, haviam desaparecido. Já não se via mais seu brilho. A cada noite, mais estrelas sumiam. No lugar delas, pontos negros e vazios. Adam, desapontado, descia a colina, muito mais cedo do que quando tinha a companhia de Uri.
Com os meses, os anos também passaram – poucos, dois, quase três. Uri nunca mais apareceu. Adam não sabia para onde ele fora. Talvez nunca viesse a saber. Entretanto, manteve-se fiel à rotina, ainda que com menos freqüência – duas ou três vezes por semana. Até o dia em que já não havia mais nenhuma estrela no céu. Todas, sem exceção, tinham se apagado. O céu agora era nada mais que um manto escuro, um tanto sombrio. Adam sentiu medo; precisou manter a lanterna acesa durante todo o tempo em que permanecia ali, naquela última noite. Voltou para casa, desiludido. No dia seguinte lhe disseram que as estrelas haviam sido tragadas por um enorme buraco negro. E alguns anos mais tarde ele já se perguntava se algum dia elas realmente haviam estado lá…