Escuridão vermelha

Setembro 17, 2008

Olá! Estive pensando no quanto, definitivamente, a faculdade me servem como inspiração. As aulas de literatura, as quais, vejam só, eu detestava no começo, hoje são as que mais me impulsionam a escrever, graças à leitura bastante profunda de autores que com suas histórias e poemas tanto têm a nos dizer.

Mas não são apenas as aulas que acabam me inspirando. A atmosfera do campus também provoca reações. Durante cinco anos de curso, acreditem, se vê muita coisa – pessoas e pessoas, e coisas -, algumas das quais profundamente irritantes. Tão irritantes que é impossível não falar sobre; mas como não gosto de falar, escrevo. E o conto que vou postar hoje surgiu de uma dessas coisas aliada à leitura de um texto de Engels para uma certa aula de uma certa matéria (igualmente irritante).

Abraços a todos, boa semana e bom fim de semana adiantado!

Escuridão vermelha

João era um rapaz rebelde. Para ele, no bom (e melhor) sentido da palavra. Cursava o terceiro semestre de Filosofia na Federal. Levava pendurado na mala um chaveiro em forma de foice e martelo, vermelho, brilhante, além de um adesivo já gasto, igualmente vermelho, com um desenho do rosto de Che Guevara. Pela manhã, antes de sair de casa, molhava os longos cabelos para deixá-los mais engruvinhados, rebeldes. Na faculdade, já não assistia às aulas; não precisava. Ia a uma ou outra, de vez em quando. Passava manhãs e tardes sentado no pátio, fumando ao lado dos colegas, todos revolucionários, como ele. À noite iam todos ao bar Moscou para beber vodka. Chegava em casa bastante tarde, bem mais vermelho do que quando saía. Casa, aliás, que ele orgulhosa e sinceramente chamava de meia-água de madeira à beira do rio, e na qual vivia com a mãe desde que nascera. Nascera pobre, vivia pobre e morreria pobre, mas revolucionário, obrigado.

Mudaria o país; o mundo! Acabaria com a burguesia; detonaria as mansões. Todos, finalmente, seriam iguais. Pobres como ele. Como na Rússia. Ah! A Rússia… Construiria uma máquina do tempo só para voltar algumas décadas e viajar para o paraíso soviético. O auge! Era seu maior sonho.

Seria um dos promotores da Revolução Brasileira. Mudaria a bandeira nacional: sairia o verde e entraria o vermelho; e no lugar do cruzeiro poria a foice e o martelo. Sairia de casa em casa, cidade em cidade, estado em estado – a pé, se necessário fosse – para pregar o comunismo como a solução do país. Gritaria até ficar rouco: viva a reforma agrária! Viva o MST e seus bonezinhos e bandeiras vermelhas! Um dia, aliás, faria parte de um acampamento sem-terra, só para invadir a propriedade de algum burguês capitalista corrupto. Enfrentaria a polícia ao lado dos camaradas, vestido de vermelho, claro. A luta pelos direitos da classe trabalhadora! Depois encontraria orgulhoso o líder do acampamento, que estaria acompanhando ao longe, de dentro de sua picape Hilux vermelha, a batalha revolucionária e sangrenta dos companheiros.

Antes disso, porém, atingiu outro objetivo. Junto aos camaradas estudantes rebeldes, invadiu o campus da universidade, em protesto ao novo terno importado (e azul!) do reitor. Despedaçou janelas, virou mesas, quebrou computadores, mas tudo muito revolucionariamente, óbvio. Mostraria a eles o poder da revolta popular! Ah, se mostraria! Subiu ao terraço com alguns companheiros para estender, lá de cima, a bela, imponente, gigante bandeira vermelha, feita de seda, cobrindo com ela boa parte da frente do edifício de cinco andares. Lá embaixo, uma dúzia e meia de gatos pingados assistia a cena passivamente, entre eles um menino de rua maltrapilho e faminto que costumava dormir ali no pátio e um velho outrora cabeludo, mas já quase sem cabelos, freqüentador do bar Moscou. Do terraço, João observava orgulhosamente o manto vermelho vestindo o prédio, e estampado nele, em amarelo vivo, o símbolo – a foice e o martelo. Chegava a ficar arrepiado. Pôs-se na beiradinha, ergueu os braços, bradou, protestou, realizado. Não sabia, contudo, o que estava por vir. Estimulado e empolgado com o gesto de João, um dos camaradas levantou espalhafatosamente os braços, e acabou o atingindo sem querer. Desequilibrado, João caiu. O fim?

Não! Resistiria bravamente, como um verdadeiro revolucionário! Agarrou-se ao sagrado estandarte vermelho, mais ou menos na altura do terceiro andar do prédio, exatamente sobre o símbolo dourado. Os camaradas lá em cima prontamente puseram-se a segurar o pavilhão; gritavam para que João agüentasse firme. João gritava para que eles o puxassem, mas, devido ao alvoroço, não ouviram. O desespero perdurou por alguns minutos. Até que, repentinamente, não suportando o peso do corpo do rapaz, a esplendorosa flâmula rubra começou a se rasgar, da esquerda para a direita. Rasgou-se por completo, e João, desafortunado, despencou agarrado a parte do pano, caindo por sobre coroas-de-cristo, repletas de florzinhas vermelhas e espinhos, que ficavam à beira da janela do térreo. As plantas suavizaram a queda, mas seus espinhos pontiagudos penetraram fundo na carne do jovem, por todo seu corpo. Só restou-lhe jazer ali, vendo desaparecer aos poucos a imagem distante dos camaradas lá em cima…

João foi levado para o hospital na BMW azul-royal de um pró-reitor que muito prontamente ofereceu ajuda. Lá, os melhores médicos atenderam-no rapidamente, e alguns poucos minutos depois já estava novamente consciente. Consciente, mas bastante fraco, pálido, João foi informado de que precisaria de uma transfusão de sangue. Imediatamente os companheiros de luta foram convocados para lhe doar sangue, mas estavam todos muito ocupados, uns com uma passeata qualquer em protesto a qualquer coisa, outros com seus cigarros no pátio do campus. A mãe de João já estava prestes a perder as esperanças quando um nobre e conhecido casal, donos de uma famosa rede de supermercados, resolveu, num ato de caridade, fazer uma doação de sangue que serviria exatamente para o pobre rapaz. Sabendo dos fatos, porém, João recusou-se terminantemente a receber em suas veias o sangue azul daqueles burgueses mesquinhos e exploradores. Em suas veias só teria sangue vermelho, rubro como a esplendorosa e inspiradora bandeira soviética! Manteve-se firme em sua posição, a despeito dos protestos dos médicos e das enfermeiras e dos conselhos da mãe. Revolucionário. Sempre. Dois dias depois, já sem forças, não resistiu. Não abriu mais os olhos. Morreu rebelde.

Respondendo o meme: A letra

Setembro 2, 2008

Olá a todos! Já há algum tempo (um bom tempo), fui convidado pelo amigo Teo a responder a um meme (não precisarei explicar novamente o que isso siginifica, certo) no qual se deve mostrar a própria letra  (não se importando com eventuais conseqüências e reações dos [ghost] readers). O convite foi feito aqui: http://bichoderondonia.com/2008/04/04/meme-assustadora-letra/  (observem a data do post e aproveitem, inclusive, pra ler os textos do blog), e aqui estou (finalmente) respondendo.

Bom, vamos lá. Se você tem problemas do coração ou síndrome do pânico, peço que pare por aqui. Não me responsabilizarei por possíveis ataques ou coisa do gênero. Se você é forte e corajoso, prossiga.

A letra

Desde que me conheço por gente (sim, eu também gosto de expressões supostamente lugar-comum), ouço (reclamações) comentários sobre minha letra. Esses comentários tiveram tanto efeito que a letra piorou com o passar dos anos, tornando-se cada vez menor (o fato de eu ter ficado cada vez mais míope pode ser apenas mera coincidência), como, aliás, vocês deverão constatar logo a seguir. Antes de (aterrorizá-los) mostrá-los de uma vez, lembro que sou mesmo canhoto, tenho certeza de que não estou escrevendo com a mão “errada”. E para mim não é necessário que os outros entendem meus (rabiscos) textos; desde que eu entenda, já é o suficiente. Boa (meia) semana a todos!

P.s.: O que se encontra na imagem abaixo, embora não pareça, é um trecho de um conto que escrevi (e rabisquei muito, pra variar). Se alguém conseguir decifrar… (pra ver a imagem maior, ponha o mouse sobre ela e clique na janelinha que irá aparecer)

A letra

A letra