Aos meus olhos
Maio 5, 2008
Olá a todos! Após um novo período de ausência retorno com um novo conto. Escolhi este conto em memória da grande tragédia ocorrida décadas atrás. Semana passada tivemos a data “oficial” da lembrança desses eventos, embora para aqueles que os viveram a data oficial é sempre “hoje”. A memória, e só ela, os acompanha todos os dias. Um abraço a todos e uma ótima semana!
Aos meus olhos
Na multidão uniforme eu me vejo. Multidão reduzida, comparada à do início. Não há muitos vovôs, nem vovós, nem crianças. Eu. Caminhamos livres. Livres como? Eu não sabia o que era. Não entendia o que meus olhos viam. E nem poderia. Caminhamos uniformes. Listrados. Eu não. Não havia uniforme para mim, nem número, pois não devia estar aqui agora. Mas vivi. Sobrevivi. Como poucos de muitos. Aos meus olhos caminho solitário.
No caminho, me recordo do dia em que o sonho se desfez, transformando-se em pesadelo. Meus pais. Era dia de Sábado e estávamos todos animados, contentes. Meu pai me colocara em seu colo (embora eu já não fosse mais tão pequeno) e me ensinava as preces matinais. Minha mãe, como de costume, trajava belas vestes, suas melhores, e caminhava sorridente pela casa, descansada. Não podiam imaginar o que viria. Ninguém poderia. Eu penso. Não antes. Quando invadiram minha casa abruptamente, meu pai imaginou. Entendeu. Num ato corajoso e desesperado, lançou-se contra um deles, gritando para que fugíssemos. Mas estávamos paralisados, surpresos. Eu estava. E vi a vida de meu pai sendo derramada na minha frente. Até as lágrimas estavam paralisadas (elas não foram derramadas), e também o grito. Fomos todos levados, espremidos como animais, com e como os muitos outros. Minha mãe, não a vi mais depois que chegamos ao campo. Eu soube mais tarde que ela adoecera e morrera. De tristeza. Como meu pai, deixara de existir. Aos meus olhos viraram estrelas.
No caminho, paro e reflito. Penso em voltar, desejo voltar. Lá estaria mais perto deles, do jeito que fosse. Meu lugar não é aqui, com a multidão. Mas sou empurrado por ela. Me querem. Me carregam uniformemente em seu meio. Não há como voltar. Devo seguir em frente. Para onde? Só me restam as memórias e os devaneios. Aos meus olhos caminho solitário.
No caminho, lembro do meu irmão. Ficamos juntos no campo. Ele me protegia do pesadelo, ou tentava. Acho que via em mim esperança. Ele, um pouco mais velho, entendia tudo. Sabia do provável fim. A esperança, porém. Resistimos bravamente, unidos, por um longo tempo. Aos meus olhos curto demais. Até o dia em que fomos chamados. Ele sabia o porquê. Me escondeu por debaixo dos beliches de madeira duros e sujos, envolvendo-me na coberta rala com a qual nos cobríamos. Não havia espaço para ele; era maior. Piscou para mim, como de costume, me deu um beijo na testa. Saiu pela porta, deixando-me no esconderijo que me havia preparado, só. Para sempre. Ele não voltou mais. A vida se desfaz como os sonhos. A esperança, porém, permanece. Esperança que ele me ensinou a ter. Para eles, os assassinos, se foi como vilão asqueroso e mau. Aos meus olhos era o herói, o mais valente e bondoso.
Caminho no meio da multidão uniforme, sem uniforme. Mas vivo. Sobrevivo. Até quando, não sei. Sem rumo, como quase todos. Aos meus olhos caminho solitário.
Maio 11, 2008 às 3:36 pm
Belo texto cara…
Conto escrito por você?
É impressionante como a eugenia ainda até hoje se faz presente mesmo que de forma velada…
Maio 12, 2008 às 1:29 am
Obrigado, Rap! Sim, me “aventurei” a escrever esse conto rs..
E “è vero”.. rs.. Abraço!