Vida, morte, poesia e afins
Maio 25, 2008
Olá a todos! Para essa semana, um (outro) poema de meu amigo Pedro, tratando de um assunto que, posso dizer, muito me chama a atenção (talvez um dos meus ‘favoritos’ para escrever sobre). Na correria, mas já não tanto, sigo postando pouco, mas os ghost readers fiéis podem ter a certeza de que este blog não irá parar (de vez), não enquanto houver vida. E com vocês, “V-I-D-a”. Abraços!
V-I-D-a
Vida vivida vencida
Várias videiras varridas
Véus, vinhos, vizinhas
Vozes, valores, vigília
Ímpeto, ímpio,impulso
Indivíduo inquieto indouto
Infalível infame indulto
Impacto ímpar imposto
Deletério deleite devasso
Derrocado depravado derrotado
Dádivas dos degenerados ditos
Desfazendo dignidade de delitos
ardil anjo altivo
antegozo airado adúltero
absorto, acólito à alma
amante ávido até a
MORTE…
Fim
Pedro Henrique do Amaral
Israel 60 Years – e conto
Maio 16, 2008
Nesta semana, o Estado de Israel completou 60 anos de existência e independência. Superando todos os obstáculos que lhe surgiram, desde os primeiros anos até hoje, Israel tem se consolidado como uma democracia, e a despeito dos problemas decorrentes da mesma (que aparecem em qualquer lugar no qual seja adotada), tem destoado totalmente dos outros países da região, seja em avanços científicos, seja no conhecimento, seja na liberdade. E talvez por isso (embora não unicamente por esta razão) desperte tanta animosidade, principal e especialmente nos países vizinhos. Que isso se registre: estou certo de que Israel permanecerá, superará os novos obstáculos que estão para surgir. Em sendo um exemplo de liberdade e respeito, oposto aos países islâmicos que o cercam, receberá sua recompensa. Parabéns, Israel! Mazel tov! E que venham os próximos 60, e 60, até 180 anos. Vida. E liberdade.
Dados os devidos cumprimentos, desejo a todos um ótimo fim de semana, e para não dizer que não postei “nada”, segue um conto, curto, mas ao mesmo tempo bastante abrangente, que aborda quase todos os temas sobre os quais costumo escrever. Abraços!
Sobre (quase) tudo (ou O sumário)
O sangue do jovem Adão foi derramado na terra. Naquela noite, seu corpo ferido caiu sobre a areia do deserto. No nada. Pesar.
Aos meus olhos
Maio 5, 2008
Olá a todos! Após um novo período de ausência retorno com um novo conto. Escolhi este conto em memória da grande tragédia ocorrida décadas atrás. Semana passada tivemos a data “oficial” da lembrança desses eventos, embora para aqueles que os viveram a data oficial é sempre “hoje”. A memória, e só ela, os acompanha todos os dias. Um abraço a todos e uma ótima semana!
Aos meus olhos
Na multidão uniforme eu me vejo. Multidão reduzida, comparada à do início. Não há muitos vovôs, nem vovós, nem crianças. Eu. Caminhamos livres. Livres como? Eu não sabia o que era. Não entendia o que meus olhos viam. E nem poderia. Caminhamos uniformes. Listrados. Eu não. Não havia uniforme para mim, nem número, pois não devia estar aqui agora. Mas vivi. Sobrevivi. Como poucos de muitos. Aos meus olhos caminho solitário.
No caminho, me recordo do dia em que o sonho se desfez, transformando-se em pesadelo. Meus pais. Era dia de Sábado e estávamos todos animados, contentes. Meu pai me colocara em seu colo (embora eu já não fosse mais tão pequeno) e me ensinava as preces matinais. Minha mãe, como de costume, trajava belas vestes, suas melhores, e caminhava sorridente pela casa, descansada. Não podiam imaginar o que viria. Ninguém poderia. Eu penso. Não antes. Quando invadiram minha casa abruptamente, meu pai imaginou. Entendeu. Num ato corajoso e desesperado, lançou-se contra um deles, gritando para que fugíssemos. Mas estávamos paralisados, surpresos. Eu estava. E vi a vida de meu pai sendo derramada na minha frente. Até as lágrimas estavam paralisadas (elas não foram derramadas), e também o grito. Fomos todos levados, espremidos como animais, com e como os muitos outros. Minha mãe, não a vi mais depois que chegamos ao campo. Eu soube mais tarde que ela adoecera e morrera. De tristeza. Como meu pai, deixara de existir. Aos meus olhos viraram estrelas.
No caminho, paro e reflito. Penso em voltar, desejo voltar. Lá estaria mais perto deles, do jeito que fosse. Meu lugar não é aqui, com a multidão. Mas sou empurrado por ela. Me querem. Me carregam uniformemente em seu meio. Não há como voltar. Devo seguir em frente. Para onde? Só me restam as memórias e os devaneios. Aos meus olhos caminho solitário.
No caminho, lembro do meu irmão. Ficamos juntos no campo. Ele me protegia do pesadelo, ou tentava. Acho que via em mim esperança. Ele, um pouco mais velho, entendia tudo. Sabia do provável fim. A esperança, porém. Resistimos bravamente, unidos, por um longo tempo. Aos meus olhos curto demais. Até o dia em que fomos chamados. Ele sabia o porquê. Me escondeu por debaixo dos beliches de madeira duros e sujos, envolvendo-me na coberta rala com a qual nos cobríamos. Não havia espaço para ele; era maior. Piscou para mim, como de costume, me deu um beijo na testa. Saiu pela porta, deixando-me no esconderijo que me havia preparado, só. Para sempre. Ele não voltou mais. A vida se desfaz como os sonhos. A esperança, porém, permanece. Esperança que ele me ensinou a ter. Para eles, os assassinos, se foi como vilão asqueroso e mau. Aos meus olhos era o herói, o mais valente e bondoso.
Caminho no meio da multidão uniforme, sem uniforme. Mas vivo. Sobrevivo. Até quando, não sei. Sem rumo, como quase todos. Aos meus olhos caminho solitário.