Olá! Estamos às vésperas de Pessach (a Páscoa judaica), e é sempre um momento para reflexão. Não, não vou postar uma reflexão aqui – costumo fugir dos temas esperados. Na verdade, procuro abordá-los de uma maneira diferente. E embora eu fuja dos temas esperados e às vezes mais “comentados”, às vezes brota naturalmente algo sobre eles. Do nada, na noite de ontem, refletindo sobre fatos recentemente ocorridos, brotou um poema, embalado por uma melodia triste, mas ao mesmo tempo inspiradora e portadora de esperança. Pessach. A liberdade. O anjinho. Chag Sameach.

Um anjinho em meus braços

Venha, meu anjinho

Eu a amparo

Protejo

Tomo em meus braços

Não deixo que caia

E abraço

Meu anjinho

Que não tem asas

Para voar

Venha, meu anjinho

Eu a seguro

Não tocará o chão

Mas voará comigo

Para um lugar seguro

Ouvirei o  som

Das suas gargalhadas

Meu anjinho

Porque para sempre e sempre

Será feliz

Como sempre foi

As lágrimas que hoje

Molham o rosto

Num lamento triste

Se tornarão

Em lágrimas de riso

Meu anjinho…

Ah, meu anjinho…

Se ao menos

Eu estivesse lá…

Uma ilha

Abril 13, 2008

Outros 1.500 anos depois, retorno ao blog, agora com um conto que já nem lembrava mais que tinha escrito – de fato. Lendo, nem reconheci que era meu, mas prestando atenção aos detalhes constatei que era mesmo. E ao ver a assinatura ao final, não tive mais dúvidas. Não lembro sequer se já havia postado no outro blog, mas se postei, já faz um bom tempo. Sim, estas coisas acontecem.

Abraços a todos, tenham uma ótima semana!

Uma ilha

Levanto. Mais um dia como os outros. Sinto nada. Somente aquele buraco. Angustiante, triste buraco, que me faz sangrar sem perder uma gota de sangue. Tomo meu café e como um pedaço de pão; mas a fome não passa. Escovo os dentes e minha boca continua suja. Tudo que está ali na verdade não está. Só eu.

Escolho as roupas para me vestir – não sei se ponho a blusa azul ou a verde. Tanto faz. Só eu vou notar. Poderia, se quisesse, usar blusa verde-limão, descombinando totalmente com a calça preta do uniforme, e também um pé de tênis de cada cor – um vermelho e um amarelo, por exemplo. Só eu me acharia ridículo. Poderia ir todo de preto e branco, ou cinza – talvez combinasse mais.

Na rua, nada. Que rua? Ela não está aqui. Eu estou. Estou num outro mundo, numa dimensão que não é a minha. Mas qual é a minha? Por que não tem ninguém aqui? A essa hora já deveria haver pelo menos uns poucos… Que hora? Nesse mundo, tudo parece ser mais lento.

Entro pelos grandes portões de ferro. No caminho, algumas árvores. Algumas pessoas. Tudo parece um sonho; enxergo meio embaçado, como se houvesse enormes colunas de fumaça em volta de mim. Terríveis. Sufocantes. Ninguém pode ou quer me ajudar. E eu, não consigo. Não posso ir contra o que sinto.

Na sala, pessoas vão e vêm. Quase me atravessam. Quero tocá-las, mas não consigo. Me sinto como um fantasma, só que sólido. Então eles devem ser os fantasmas. De qualquer forma, não podem me ver. São, como as outras coisas, feitos de sonho. Mas não do meu. Do mundo; deste mundo feito de vapor. Estou fora do lugar?

Volto. Não há ninguém. Faz muito frio. Me sinto cansado. Pego um cobertor e deito no sofá. O frio não passa. Fico horas deitado, mas o cansaço também não passa. Estou cansado de quê? É sempre assim. Todo dia. Todo demorado dia. E o buraco dentro de mim.

Por isso, eu sei, vai chegar o momento em que os meus dias vão se acabar, ou que o dolorido buraco vai me por um fim. Talvez seja o destino que escolhi para mim; que me foi escolhido. Mas quem sabe, algum dia, eu não encontre minha cura, e possa transformar esse mundo todo, ou boa parte dele, em um mundo de verdade. Enquanto isso, sigo caminhando, atravessando as paredes, as pessoas, e os limites do mundo de sonho, tão lento e tão frio. Só eu o percebo. Eu, sozinho.