Um anjinho em meus braços
Abril 18, 2008
Olá! Estamos às vésperas de Pessach (a Páscoa judaica), e é sempre um momento para reflexão. Não, não vou postar uma reflexão aqui – costumo fugir dos temas esperados. Na verdade, procuro abordá-los de uma maneira diferente. E embora eu fuja dos temas esperados e às vezes mais “comentados”, às vezes brota naturalmente algo sobre eles. Do nada, na noite de ontem, refletindo sobre fatos recentemente ocorridos, brotou um poema, embalado por uma melodia triste, mas ao mesmo tempo inspiradora e portadora de esperança. Pessach. A liberdade. O anjinho. Chag Sameach.
Um anjinho em meus braços
Venha, meu anjinho
Eu a amparo
Protejo
Tomo em meus braços
Não deixo que caia
E abraço
Meu anjinho
Que não tem asas
Para voar
Venha, meu anjinho
Eu a seguro
Não tocará o chão
Mas voará comigo
Para um lugar seguro
Ouvirei o som
Das suas gargalhadas
Meu anjinho
Porque para sempre e sempre
Será feliz
Como sempre foi
As lágrimas que hoje
Molham o rosto
Num lamento triste
Se tornarão
Em lágrimas de riso
Meu anjinho…
Ah, meu anjinho…
Se ao menos
Eu estivesse lá…
Uma ilha
Abril 13, 2008
Outros 1.500 anos depois, retorno ao blog, agora com um conto que já nem lembrava mais que tinha escrito – de fato. Lendo, nem reconheci que era meu, mas prestando atenção aos detalhes constatei que era mesmo. E ao ver a assinatura ao final, não tive mais dúvidas. Não lembro sequer se já havia postado no outro blog, mas se postei, já faz um bom tempo. Sim, estas coisas acontecem.
Abraços a todos, tenham uma ótima semana!
Uma ilha
Levanto. Mais um dia como os outros. Sinto nada. Somente aquele buraco. Angustiante, triste buraco, que me faz sangrar sem perder uma gota de sangue. Tomo meu café e como um pedaço de pão; mas a fome não passa. Escovo os dentes e minha boca continua suja. Tudo que está ali na verdade não está. Só eu.
Escolho as roupas para me vestir – não sei se ponho a blusa azul ou a verde. Tanto faz. Só eu vou notar. Poderia, se quisesse, usar blusa verde-limão, descombinando totalmente com a calça preta do uniforme, e também um pé de tênis de cada cor – um vermelho e um amarelo, por exemplo. Só eu me acharia ridículo. Poderia ir todo de preto e branco, ou cinza – talvez combinasse mais.
Na rua, nada. Que rua? Ela não está aqui. Eu estou. Estou num outro mundo, numa dimensão que não é a minha. Mas qual é a minha? Por que não tem ninguém aqui? A essa hora já deveria haver pelo menos uns poucos… Que hora? Nesse mundo, tudo parece ser mais lento.
Entro pelos grandes portões de ferro. No caminho, algumas árvores. Algumas pessoas. Tudo parece um sonho; enxergo meio embaçado, como se houvesse enormes colunas de fumaça em volta de mim. Terríveis. Sufocantes. Ninguém pode ou quer me ajudar. E eu, não consigo. Não posso ir contra o que sinto.
Na sala, pessoas vão e vêm. Quase me atravessam. Quero tocá-las, mas não consigo. Me sinto como um fantasma, só que sólido. Então eles devem ser os fantasmas. De qualquer forma, não podem me ver. São, como as outras coisas, feitos de sonho. Mas não do meu. Do mundo; deste mundo feito de vapor. Estou fora do lugar?
Volto. Não há ninguém. Faz muito frio. Me sinto cansado. Pego um cobertor e deito no sofá. O frio não passa. Fico horas deitado, mas o cansaço também não passa. Estou cansado de quê? É sempre assim. Todo dia. Todo demorado dia. E o buraco dentro de mim.
Por isso, eu sei, vai chegar o momento em que os meus dias vão se acabar, ou que o dolorido buraco vai me por um fim. Talvez seja o destino que escolhi para mim; que me foi escolhido. Mas quem sabe, algum dia, eu não encontre minha cura, e possa transformar esse mundo todo, ou boa parte dele, em um mundo de verdade. Enquanto isso, sigo caminhando, atravessando as paredes, as pessoas, e os limites do mundo de sonho, tão lento e tão frio. Só eu o percebo. Eu, sozinho.