Ani Maamin

Setembro 28, 2007

Olá a todos! Para quem não sabe,  estamos hoje no 3º dia da festa de Sukot - Tabernáculos. Então, lhes desejo um “chag sukot sameach”!

Sukot é uma festa alegre, e representa nada mais nada menos que o tempo vindouro em que nosso Mashiach irá reinar em Jerusalém. Por isso deixo hoje esse vídeo, que recorda um fato muito triste, mas a canção, interpretada pelos meninos do Miami Boys Choir,  de fato tem tudo a ver com esse tempo. Um abraço!

As montanhas

Setembro 14, 2007

Olá! Bem, ontem, pra quem não sabe, foi o primeiro dia do novo ano judaico – 5768. Que esse ano possa ser especial. Desejo a todos um ano bom e  doce – shanah tovah umetukah – e que nossos nomes sejam inscritos no livro da vida.

Como ando meio sem tempo, vou “repostar” um conto que estava no blog antigo. É um conto que fala de coisas bonitas, pra começar bem o ano. É um pouco longo, mas quem tiver um tempinho, dê uma olhada. Acho que vale a pena. Um abraço!

As montanhas

Um dia perfeito! Depois de se espreguiçar e esfregar os olhos, Mordechai mal pôde acreditar quando olhou pela janela e viu aquele maravilhoso céu azul, de brigadeiro, como o avô dizia, sem uma nuvem sequer. O clima estava bem agradável, fresco, apesar de ainda ser muito cedo. Seu irmão Uri dormia tranqüilamente, chegando a suspirar vez ou outra. Mordechai pensou em se deitar novamente e tentar dormir mais um pouco. Mas aquele dia não era como os outros – era um dia especial. E a última coisa que ele conseguiria fazer era dormir. Por isso levantou, calçou os chinelos e foi em direção à porta, tentando fazer o mínimo de barulho para não acordar Uri.

Achou que poderia comer um pedaço do delicioso pão preparado pela mãe no dia anterior (aliás, era a única coisa que ela sabia fazer na cozinha). Mas resolveu que esperaria todos levantarem, para comer junto com eles. Afinal, aquele dia não era como os outros. Foi até a sala, onde viu sobre o sofá azul-marinho o livro aberto no trecho que deveria ler na frente de um monte de gente dali a poucas horas. Decidiu treinar um pouco mais, pois na verdade não era só ler; deveria cantar a passagem, o que deixava as coisas um pouco mais complicadas – já não bastasse o nervosismo de ficar exposto em público.

Leu, releu, uma, duas, três vezes. Até que ouviu o barulho de uma porta abrindo. Era a do quarto dos pais. E pelo jeito de andar, era a mãe que havia levantado. Não foi ao encontro dela no corredor. Ficou ali, na expectativa de que ela o visse estudando o livro e dissesse algo como “ai, que lindo o meu garotinho, levantando cedo para se preparar!”. Mas de repente isso lhe pareceu meio bobo, meio… infantil. Então torceu para que ela não dissesse. Porém, quando a mãe entrou na sala e o viu ali com o livro, a primeira coisa que disse foi:

“Ai, que lindo o meu garotinho, levantando cedo para se preparar!”

Não queria ter ouvido isso. A partir daquele dia não seria mais um garotinho; pelo menos achava que não seria. Mas como deixaria de ser um garoto, assim, de uma hora para outra? Num passe de mágica? E, ainda, o que iriam querer dele? Que agisse sempre como um adulto? Ainda não era um adulto. Era?

“Não, mãe, eu… é… só tava dando mais uma olhada”, Mordechai balbuciou, não vendo como contestar a mãe.

“Está certo, filhinho! Seu pai vai ficar orgulhoso!”

O pai? Então estaria fazendo aquilo para ele? Para os pais? Para as outras pessoas? E ele, o que ganharia? Quer dizer, até então achava que seria para si mesmo. Por um momento, Mordechai chegou a pensar em desistir. Como se pudesse.

Mais tarde, durante o café da manhã com toda a família reunida, Mordechai observava Uri. O irmão, quase dois anos mais novo, às vezes parecia muito mais “adulto” que ele; seria “adulto” ou “maduro”? Não sabia dizer. Uri ainda era uma criança sim, mas havia algo de diferente nele; algo que Mordechai também tinha, embora parecesse, por alguma razão, querer esconder. Por que fazia aquilo? Porque talvez fosse justamente o contrário de ser adulto, já que não se lembrava de algum adulto que fosse tão “diferente” quanto Uri. A não ser o tio Mike, um parente que só vira uma vez na vida, há alguns anos atrás. Aquele era especial. Mas o único.

Uri gostava de imaginar coisas. Olhava para a xícara e via um pássaro. Na fatia de pão via um tapete mágico. Às vezes parecia exagerar um pouco. Para os pais, muito objetivos, estava sempre exagerando. Mas, sem dúvida, eles é que eram os exagerados. Ou não? Quem estava certo? Havia algum “certo”? O café estava quente demais, mas o pão uma delícia.

Uri gostava também de ficar sentado na cama bem na frente da janela, para admirar as montanhas que despontavam no horizonte. Dizia que a maior de todas as aventuras seria atravessar aqueles montes e descobrir o que haveria do outro lado. De vez em quando contava histórias sobre como tentara fazer a travessia, passando por entre as altas árvores e enfrentando inúmeros obstáculos. Porém, nunca sequer pusera os pés nas montanhas. Pelo menos não que alguém soubesse. Não da maneira que se imaginava. E Mordechai sabia disso. Contudo, ainda não tivera coragem de acompanhar o irmão na aventura. Por comodidade, pressão ou medo, preferia permanecer ali, ao pé do monte, como fazia a maioria. De fato não era o que queria. Seria muito chato ficar parado ali como todo mundo. Como os pais.

Aliás, eles, os pais, mesmo naquele dia especial – não só pelo evento de Mordechai, mas por ser um sétimo – não paravam de falar sobre negócios, trabalho, dinheiro, e essas coisas. Era assim a semana toda, no café, no almoço (quando dava tempo de almoçar em casa) e na janta. O pai queria que Mordechai fosse como ele, que viesse a cuidar dos “negócios da família”; nunca dissera isso, mas Mordechai sabia, pois era assim que tinha de ser: o filho mais velho herda o trabalho do pai. E ainda mais agora, depois desse dia, sabia que sua responsabilidade aumentaria. Só por causa da tradição? Deveria ser mesmo um passe de mágica.

Depois do café o pai o chamou para o quarto para conversar. Mordechai podia imaginar o tipo da conversa. E foi exatamente o que esperava. O pai disse que a partir daquele dia ele passaria a ser responsável por seus próprios atos, devendo seguir e viver conforme os bons princípios. Mas que princípios esses que o pai mesmo não seguia? Estava fazendo aquilo mais por obrigação do que por realmente acreditar. Mordechai ainda não entendia. Não passaria de um mentiroso se prometesse algo e não cumprisse depois. E se antes ele desejava intensamente a chegada desse dia, agora só o que queria era que, se pudesse, fosse adiado mais alguns anos.

Assim que o pai saiu, Uri entrou o quarto, como a primeira estrela que enfeita o céu ao entardecer das sextas-feiras. Estava sempre sorrindo, o rosto sempre sereno. Sem dizer uma palavra, Uri sentou ao lado do irmão e apontou com a mão direita para a janela, na direção das montanhas ao horizonte. Depois, olhou docemente para Mordechai, e com voz igualmente doce disse:

“Pra chegar do outro lado tem que subir de pouquinho, de vagar, senão não tem como! E tem que fazer isso sendo pequeno; os grandes não conseguem passar pelos buracos no meio das árvores, por causa do tamanho deles.”

Mordechai sorriu. Nesse momento, a mãe mandou que os dois se arrumassem, pois já estava quase na hora e não deveriam se atrasar. Mordechai entendeu. Já estava pronto. Trocar de roupa era como subir a montanha, peça a peça, passo a passo. E se você fosse grande não caberia nas roupas. Bom mesmo era ser pequeno. Finalmente lá foram eles, levados pelos pais ao pé dos montes do horizonte. Eram montanhas muito altas, cheias de árvores e alguns pedregulhos. Possivelmente por isso houvesse tantas pessoas simplesmente paradas, acomodadas ali na base. Não tinham coragem de subir. Ou talvez tivessem se deixado crescer demais. Vestiam roupas muito elegantes, um pouco curtas, que pareciam fantasias ou disfarces. Os sorrisos também eram de fantasia. Talvez tivessem acreditado que tudo era um simples passe de mágica. Talvez quisessem ter acreditado nisso, por ser mais fácil.

Mas ali de baixo se podia ver também algumas pessoas lá no meio das montanhas, subindo e subindo. Mais pareciam pontinhos coloridos no verde-escuro dos montes. Havia também um ou outro que se aventurara a subir mas desistira no meio do caminho; esses desciam, voltando para a base, e reforçavam o coro dos que estavam ali: “é impossível chegar ao outro lado”. Mordechai sabia que não. Uri também.

Mordechai não pensou duas vezes. Não queria ficar ali. Queria subir e ver o outro lado. Olhou para Uri; queria que o irmão fosse com ele, se pudesse. Uri abraçou Mordechai e disse, com voz doce e firme, qual a de um anjo:

“É a sua vez agora. Você vai conseguir. Eu vou fazer tudo pra ajudar você. Ele também. Agora você tem que ir!”

Mordechai deu mais um abraço em Uri, e beijou o pai e a mãe. Eles, os pais, ficaram ali, como a maioria. Quem sabe um dia não acordassem, diminuíssem e resolvessem subir também. Nunca era tarde para isso. Uri também ficou, mas Mordechai sabia que na verdade ele já estava subindo. Por isso era especial. E enfim Mordechai foi, subindo os primeiros degraus, dando os primeiros passos. Tomou o livro e começou a cantar a canção; mas já conhecia de cor. Sabia das dificuldades; porém, tinha certeza de que conseguiria. Afinal, era para isso que existia. Uri também tinha certeza. Principalmente porque conhecia Alguém que se dispunha a ajudar aqueles que subiam a montanha e desejavam alcançar o outro lado, de todo o coração. E Uri conhecia o coração de Mordechai; Mordechai também conhecia o de Uri. Talvez porque os dois tivessem o mesmo coração. O mesmo pequeno, doce e sábio coração. E dentro dele a essência, a essência diferente. E lá se ia Mordechai com o livro, um pontinho colorido e brilhante no verde-escuro das montanhas. Como a primeira estrela que enfeita o céu ao entardecer das sextas-feiras.