Chicken a la Carte

Junho 3, 2009

Olá ghost readers (more than never)! Recebi ontem, por e-mail, a indicação de um filme, lançado há pouco tempo, que promete arrasar nas telas do mundo todo e tornar-se um sucesso de bilheteria – Chicken a la Carte. Embora o filme trate, como muitos outros blockbusters atuais, de uma história baseada em fatos reais, acreditem, ele tem um grande diferencial. E é por isso que ele promete – muito!

E o melhor de tudo, meus amigos – ele já está disponível na internet. Certo, eu sei, eu sei, também não sou a favor desse tipo de coisa. Respeito os direitos autorais. Eu mesmo não gostaria que minhas sngelas obras fossem espalhadas por aí, ao léu – e sem que, é claro, eu recebesse os devidos créditos. Mas, podem confiar, o endereço no qual se encontra disponível a versão integral do filme é totalmente legal!

Portanto, não percam mais tempo! Cliquem no link abaixo e assistam de antemão o novo sucesso dos cinemas – Chicken a la Carte. Uma história emocionante! Enjoy it! Abraços, e um ótimo fim de semana!

http://www.cultureunplugged.com/play/1081/Chicken-a-la-Carte

Obs.: não se trata de vírus; mais uma vez, podem confiar; o filme (um curta) está totalmente disponível no site   ;)

Headphones

Maio 15, 2009

The Long Fall Back to Earth (2009)

The Long Fall Back to Earth (2009)

O novo trabalho da banda Jars of Clay, The Long Fall Back to Earth, lançado no último 24 de abril, não surpreende. Já no último álbum, Good Monsters (2006), as músicas vieram com qualidade impecável, mas principalmente – e no caso o que mais me chamou a atenção – havia uma postura crítica presente de maneira bastante inteligente nas composições de Dan Haseltine e companhia. Felizmente, a banda parece ter se decidido a manter a mesma postura no novo CD – além da qualidade da música.

Ao ouvir algumas vezes “Headphones”, uma das canções de The Long Fall Back to Earth, posso dizer que é uma das mais inteligentes que já ouvi, ao lado de “Good Monsters”, do álbum anterior. Por isso posto aqui a tradução da letra da mesma, e desafio os ghost readers a entenderem a mensagem. Não é difícil; basta prestar atenção e refletir.

Tentei encontrar a música no Youtube para por aqui, mas por incrível que pareça (ou não) é uma das únicas do cd que ainda não estão por lá (por que será?…)  Um bom fim de semana!

Fones de ouvido

Eu não tenho que ouvir isso, se eu não quiser

Eu posso encobrir isso, derrubar as cortinas em você

É um mundo cruel, é muita coisa pra eu me preocupar

Se eu fechar os meus olhos, ele não está mais lá

Com meus fones de ouvido ligados, com meus fones de ouvido ligados

Nós assistimos  televisão… mas o som é outra coisa

Apenas uma música tocada em contraste ao drama, e por isso a ferida nunca é sentida

Eu entendo as guerras, e congelo com os eventos atuais

É tão desesperador, mas tem uma canção pop nos meus

Fones de ouvido ligados, nos meus fones de ouvido ligados, com meus fones de ouvido ligados, com meus fones de ouvido ligados

No túnel do metrô, você se senta na minha frente

(Eu posso te ver olhando pra mim)

Eu acho que conheço você

Pelos olhos tristes que vejo

Eu quero te contar (É um mundo cruel)

Tudo ficará bem

Você não daria ouvidos a isso (Eu não quero ter que ouvir isso)

E então seguimos nossos caminhos separadamente…

Com nossos fones de ouvido ligados

Eu não quero ser aquele que tenta entender isso

Eu não preciso de um outro motivo pelo qual deva me preocupar com você

Você não quer saber da minha história

Não quer sentir a minha dor

Vivendo em um mundo tão, tão cruel

Mas tem uma canção pop na minha cabeça

(Em meus fones de ouvido ligados)

Não quero ter que ouvir isso

(Com meus fones de ouvido ligados)

Eu não quero ter que ouvir isso

Visita nada ilustre

Abril 30, 2009

Mahmoud Ahmadinejad

Mahmoud Ahmadinejad

A visita do presidente iraniano ao Brasil continua causando polêmica (e estaria ainda mais caso a mídia não tivesse agora um assunto bem mais bombástico para tratar). Não é para menos. Já há tempos, Mahmoud Ahmadinejad vem dando declarações polêmicas a respeito do Estado de Israel e, especialmente, do Holocausto – pondo em dúvida a importância ou mesmo a existência do mesmo. Mas quem é de fato Ahmadinejad, e com que autoridade tem dito tais coisas, chegando a utilizar-se até mesmo de uma assembleia da ONU como seu púlpito?

Segue, de maneira resumida, o currículo do sujeito:  o Irã de Ahmadinejad é hoje um dos países que mais desrespeita os direitos humanos; o governo de Ahmadinejad segue discriminando e perseguindo as minorias no país; o Irã vem investindo no desenvolvimento de armamentos nucleares – e pergunto-me como tais armamentos podem ser usados para fins “pacíficos”, como declara o governo iraniano;  Ahmadinejad criticou tanto o Cristianismo quanto o Judaísmo, proclamando o Islã como “a única religião capaz de salvar a humanidade”, numa tentativa clara de estimular a “guerra” religiosa.

Repito a pergunta postulada no início, agora de maneira mais completa: com que autoridade Ahmadinejad chama o Estado de Israel de “nazista”, pondo-se como o grande defensor da “causa palestina” (e questiono-me por que então não ajuda seus “irmãos” oferecendo-lhes parte de sua terra ), uma vez que seu próprio governo persegue de maneira feroz, e por motivo não outro senão religioso, as minorias de seu país? Por que o sr. Ahmadinejad não fala sobre isto em seus “aclamados” discursos? Com que autoridade Ahmadinejad minimiza a tragédia do Holocausto, dadas as inúmeras provas documentadas e testemunhas oculares? Por acaso estava ele lá, de mãos dadas com o führer? Tivesse nascido alguns anos antes, não seria de se estranhar…

Sim, este é o homem que estará em breve “visitando” nosso amado e pacífico país. Este é o homem que nossos governantes receberão com honrarias das quais, como deve estar claro, ele não é digno. Este é o homem que fez com que representantes de vários países se retirassem da assembleia da ONU, apenas para não ouvir seu discurso xenófobo. E, quem dera, pudéssemos nós, brasileiros, fazer o mesmo assim que o avião de Ahmadinejad tocasse nosso solo. Já que não é possível, limitemo-nos às faixas e a nossas vozes. E, quem sabe, tomates.

Olá a todos! Nesta semana que passamos pela data de recordação da Shoah (Holocausto) e que nos aproximamos da celebração de Yom Haatzmaut, o dia da independência do Estado de Israel (que se dará na próxima quinta-feira), posto aqui um pequeno e interessante comentário do diplomata Luiz Felipe Lampreia sobre a iminente visita do presidente iraniano, que há muito tem se posicionado contra Israel, chegando ao cúmulo de negar o Holocausto (e sobre isso ainda devo escrever) e utilizar-se de uma assembleia da ONU como tentativa de difundir suas ideias excusas. Sobre o texto abaixo, nada a acrescentar – concordo plenamente com ele. Um bom fim de semana!

Por que convidar Ahmadinejad?

Luiz Felipe Lampreia

O presidente do Irã é um dos mais perigosos atores da cena internacional. O espetáculo lamentável de seu discurso de ontem na conferência da ONU de combate ao racismo é prova de que Mahmud Ahmadinejad não é pessoa que se frequente. Durante meses,os delegados dos países membros discutiram o projeto de comunicado da conferência e haviam conseguido retirar afirmações controversas sobre Israel.Veio porém o líder iraniano destilar seu veneno no pódio de Genebra, com um sorriso de escárnio na boca, provocando a retirada do plenário de dezenas de diplomatas que não puderam tolerar a espetáculo. O próprio Secretário Geral da ONU , normalmente muito contido, sentiu-se indignado e afirmou que “nunca tinha assistido a este tipo de comportamento destrutivo numa assembléia, numa conferência, por qualquer país membro. Lamento o uso desta plataforma pelo presidente iraniano para acusar, dividir e até incitar.” O comportamento do presidente iraniano é tanto mais inaceitável quanto seu país é notório por praticar discriminação racial, perseguição religiosa e intolerância com minorias. Desde sua posse, Ahmadinejad tem-se notabilizado por atitudes agressivas. Às vésperas de uma eleição em que busca um segundo mandato, terá achado oportuno recrudescer. Pois bem, este é o próximo presidente a visitar o Brasil.Como poderá o presidente Lula, cujas credenciais democráticas são indiscutíveis, conviver com uma pessoa desse nível? Como justificar a presença em nosso país de um homem que prega valores e ações em tudo contrários aos nossos? Como explicar à comunidade internacional que o Brasil hospedará um líder que é descrito pelo Secretário Geral da ONU com as palavras acima citadas? Seria muito oportuno que o presidente Lula alegasse uma gripe ou coisa assim para desmarcar a visita deste sinistro personagem, cuja visita só pode trazer prejuízos ao Brasil.

# Luiz Felipe Lampreia é diplomata de carreira e foi ministro das Relações Exteriores de 1995 a 2001

Incessante giro

Abril 14, 2009

Olá! Após séculos, milênios de ausência, hoje, 14 de abril de 2009, este humilde ghost writer retorna a este humilde ghost blog, atendendo aos inúmeros pedidos dos humildes ghost readers.

Posto hoje um poema que surgiu de uma “brincadeira”, num desses dias quase banais, não fosse pelo local onde me encontrava, pela companhia e pelo fato de ser férias. Apesar da origem, acabei achando-o simpático, e um tanto mais reflexivo do que eu de fato achava que ficaria antes de tê-lo escrito. Entretanto, não deixa de ser uma ‘brincadeirinha de roda’ com a composição – mas uma brincadeirinha educativa produtiva. Uma ótima semana a todos!

Incessante giro


O planeta gira, gira sem parar

Gira, gira, planetinha

Caminha

No sistema solar.

Um metoro aqui, um lá

Na galáxia vizinha

Coitadinha

Um negrume a avançar.

Quer parar, sim, quer parar

De girar o planetinha

Palhinha

Do que está pra chegar.

Mas não há de se apagar

O brilho da estrelinha

Sozinha

O planeta a iluminar.

Gira, gira planetinha

Gira agora sem parar

Ao redor da estrelinha

Que pra sempre irá brilhar.

Pois já sabe ele que mesmo em meio à chuva de meteoros ou na escuridão mais profunda, resplandecerá a luz e se espalhará o calor da estrela que o motiva a girar, girar, girar…

O conflito

Janeiro 12, 2009

Pergunto-me por quê o período de férias sempre redunda em “férias criativas” – no sentido de que a criatividade parece igualmente tirar férias durantes esses meses  (embora eu esteja me dedicando quase que exclusivamente agora a um livro).

Por essa razão, o post de “reestréia” do blog, o primeiro desse ano de 2009, não é exatamente de minha autoria, mas reflete perfeitamente o que penso a respeito do polêmico atual conflito no Oriente Médio, a guerra Israel x Hamas. E, sim, enfatizo que minha opinião – e não apenas por minhas origens,  que fique claro – caminha na direção contrária à da grande maioria seguidora fiel da mídia sensacionalista.

Abraços a todos, um ótimo 2009,  e, aqueles que podem, aproveitem bem suas férias!

O conflito – kinder…

crianças palestinas

crianças palestinas

Buraco negro

Outubro 26, 2008

Olá! Retornando após um novo e breve período (isso já está se tornando repetitivo, por isso mudarei o próximo termo) de inércia, nos mais variados sentidos possíveis, mas especialmente no que nos interessa, o “literário”. O período dos chagim – feriados judaicos, no caso, Rosh Hashana, Yom Kipur e Sukot – é de profunda reflexão, e é engraçado como nestes dias a “inspiração” dá lugar a outro tipo de sentimento. Bem, é assim mesmo que deve ser…

Para mais sobre os feriados judaicos a que me referi, visite:

http://www.chabad.org.br/datas/index.html

Para a semana (posterior ao último dia de Sukot), um conto – novo. A volta da inspiração e da rotina, mas já no novo ciclo. Uma ótima semana, e um 5.769 bom e doce!

Buraco negro

Adam saía escondido de casa todas as noites. Subia apressadamente a colina no fim da rua, carregando consigo uma mochila com alguns poucos objetos – uma garrafinha com água, um pacote de biscoitos, um binóculo e uma lanterna. Vez ou outra olhava para trás, apreensivo. Não devia ser visto; perderia a graça. Perderia a magia. Naquelas noites, não poderia haver mais ninguém na colina além dele – e de Uri.

Uri era um garoto especial. Diferente. Às vezes, quando Adam chegava ao topo da colina, Uri já estava lá. Ou então aparecia pouco depois, mas nunca se atrasava. Adam não sabia de onde ele vinha, nem sequer onde morava. Não importava. Uri estava sempre ali, todas as noites. Isso sim era importante. Deitavam-se no gramado macio, um ao lado do outro, as mãos sob a cabeça servindo de travesseiro. Sorridentes, punham-se a conversar e a observar, dividindo o binóculo, as milhares de estrelas que enchiam o céu e iluminavam a noite. Adam também dividia com o amigo os biscoitos e a água. Passavam horas ali. E quando Adam descia a colina, com a lanterna acesa na mão (só então ele a acendia), e voltava para casa, já era quase madrugada. Uri descia pelo outro lado, ou dizia que ficaria mais um pouco lá em cima. Ele não precisava de lanterna. E assim era. Sempre.

Os meses, porém, passaram rápidos e vagarosos como as nuvens. Uri já não aparecia todos os dias. Disse que estava doente. Adam, contudo, continuava a subir a colina, embora deixasse de ir um dia ou outro. Deitava-se no gramado, sozinho mesmo, deixando a lanterna acesa ao seu lado por alguns instantes, enquanto comia os biscoitos e bebia a água. Olhava para o céu e notava que algumas das estrelas que gostavam de observar, as mais belas, haviam desaparecido. Já não se via mais seu brilho. A cada noite, mais estrelas sumiam. No lugar delas, pontos negros e vazios. Adam, desapontado, descia a colina, muito mais cedo do que quando tinha a companhia de Uri.

Com os meses, os anos também passaram – poucos, dois, quase três. Uri nunca mais apareceu. Adam não sabia para onde ele fora. Talvez nunca viesse a saber. Entretanto, manteve-se fiel à rotina, ainda que com menos freqüência – duas ou três vezes por semana. Até o dia em que já não havia mais nenhuma estrela no céu. Todas, sem exceção, tinham se apagado. O céu agora era nada mais que um manto escuro, um tanto sombrio. Adam sentiu medo; precisou manter a lanterna acesa durante todo o tempo em que permanecia ali, naquela última noite. Voltou para casa, desiludido. No dia seguinte lhe disseram que as estrelas haviam sido tragadas por um enorme buraco negro. E alguns anos mais tarde ele já se perguntava se algum dia elas realmente haviam estado lá…

Escuridão vermelha

Setembro 17, 2008

Olá! Estive pensando no quanto, definitivamente, a faculdade me servem como inspiração. As aulas de literatura, as quais, vejam só, eu detestava no começo, hoje são as que mais me impulsionam a escrever, graças à leitura bastante profunda de autores que com suas histórias e poemas tanto têm a nos dizer.

Mas não são apenas as aulas que acabam me inspirando. A atmosfera do campus também provoca reações. Durante cinco anos de curso, acreditem, se vê muita coisa – pessoas e pessoas, e coisas -, algumas das quais profundamente irritantes. Tão irritantes que é impossível não falar sobre; mas como não gosto de falar, escrevo. E o conto que vou postar hoje surgiu de uma dessas coisas aliada à leitura de um texto de Engels para uma certa aula de uma certa matéria (igualmente irritante).

Abraços a todos, boa semana e bom fim de semana adiantado!

Escuridão vermelha

João era um rapaz rebelde. Para ele, no bom (e melhor) sentido da palavra. Cursava o terceiro semestre de Filosofia na Federal. Levava pendurado na mala um chaveiro em forma de foice e martelo, vermelho, brilhante, além de um adesivo já gasto, igualmente vermelho, com um desenho do rosto de Che Guevara. Pela manhã, antes de sair de casa, molhava os longos cabelos para deixá-los mais engruvinhados, rebeldes. Na faculdade, já não assistia às aulas; não precisava. Ia a uma ou outra, de vez em quando. Passava manhãs e tardes sentado no pátio, fumando ao lado dos colegas, todos revolucionários, como ele. À noite iam todos ao bar Moscou para beber vodka. Chegava em casa bastante tarde, bem mais vermelho do que quando saía. Casa, aliás, que ele orgulhosa e sinceramente chamava de meia-água de madeira à beira do rio, e na qual vivia com a mãe desde que nascera. Nascera pobre, vivia pobre e morreria pobre, mas revolucionário, obrigado.

Mudaria o país; o mundo! Acabaria com a burguesia; detonaria as mansões. Todos, finalmente, seriam iguais. Pobres como ele. Como na Rússia. Ah! A Rússia… Construiria uma máquina do tempo só para voltar algumas décadas e viajar para o paraíso soviético. O auge! Era seu maior sonho.

Seria um dos promotores da Revolução Brasileira. Mudaria a bandeira nacional: sairia o verde e entraria o vermelho; e no lugar do cruzeiro poria a foice e o martelo. Sairia de casa em casa, cidade em cidade, estado em estado – a pé, se necessário fosse – para pregar o comunismo como a solução do país. Gritaria até ficar rouco: viva a reforma agrária! Viva o MST e seus bonezinhos e bandeiras vermelhas! Um dia, aliás, faria parte de um acampamento sem-terra, só para invadir a propriedade de algum burguês capitalista corrupto. Enfrentaria a polícia ao lado dos camaradas, vestido de vermelho, claro. A luta pelos direitos da classe trabalhadora! Depois encontraria orgulhoso o líder do acampamento, que estaria acompanhando ao longe, de dentro de sua picape Hilux vermelha, a batalha revolucionária e sangrenta dos companheiros.

Antes disso, porém, atingiu outro objetivo. Junto aos camaradas estudantes rebeldes, invadiu o campus da universidade, em protesto ao novo terno importado (e azul!) do reitor. Despedaçou janelas, virou mesas, quebrou computadores, mas tudo muito revolucionariamente, óbvio. Mostraria a eles o poder da revolta popular! Ah, se mostraria! Subiu ao terraço com alguns companheiros para estender, lá de cima, a bela, imponente, gigante bandeira vermelha, feita de seda, cobrindo com ela boa parte da frente do edifício de cinco andares. Lá embaixo, uma dúzia e meia de gatos pingados assistia a cena passivamente, entre eles um menino de rua maltrapilho e faminto que costumava dormir ali no pátio e um velho outrora cabeludo, mas já quase sem cabelos, freqüentador do bar Moscou. Do terraço, João observava orgulhosamente o manto vermelho vestindo o prédio, e estampado nele, em amarelo vivo, o símbolo – a foice e o martelo. Chegava a ficar arrepiado. Pôs-se na beiradinha, ergueu os braços, bradou, protestou, realizado. Não sabia, contudo, o que estava por vir. Estimulado e empolgado com o gesto de João, um dos camaradas levantou espalhafatosamente os braços, e acabou o atingindo sem querer. Desequilibrado, João caiu. O fim?

Não! Resistiria bravamente, como um verdadeiro revolucionário! Agarrou-se ao sagrado estandarte vermelho, mais ou menos na altura do terceiro andar do prédio, exatamente sobre o símbolo dourado. Os camaradas lá em cima prontamente puseram-se a segurar o pavilhão; gritavam para que João agüentasse firme. João gritava para que eles o puxassem, mas, devido ao alvoroço, não ouviram. O desespero perdurou por alguns minutos. Até que, repentinamente, não suportando o peso do corpo do rapaz, a esplendorosa flâmula rubra começou a se rasgar, da esquerda para a direita. Rasgou-se por completo, e João, desafortunado, despencou agarrado a parte do pano, caindo por sobre coroas-de-cristo, repletas de florzinhas vermelhas e espinhos, que ficavam à beira da janela do térreo. As plantas suavizaram a queda, mas seus espinhos pontiagudos penetraram fundo na carne do jovem, por todo seu corpo. Só restou-lhe jazer ali, vendo desaparecer aos poucos a imagem distante dos camaradas lá em cima…

João foi levado para o hospital na BMW azul-royal de um pró-reitor que muito prontamente ofereceu ajuda. Lá, os melhores médicos atenderam-no rapidamente, e alguns poucos minutos depois já estava novamente consciente. Consciente, mas bastante fraco, pálido, João foi informado de que precisaria de uma transfusão de sangue. Imediatamente os companheiros de luta foram convocados para lhe doar sangue, mas estavam todos muito ocupados, uns com uma passeata qualquer em protesto a qualquer coisa, outros com seus cigarros no pátio do campus. A mãe de João já estava prestes a perder as esperanças quando um nobre e conhecido casal, donos de uma famosa rede de supermercados, resolveu, num ato de caridade, fazer uma doação de sangue que serviria exatamente para o pobre rapaz. Sabendo dos fatos, porém, João recusou-se terminantemente a receber em suas veias o sangue azul daqueles burgueses mesquinhos e exploradores. Em suas veias só teria sangue vermelho, rubro como a esplendorosa e inspiradora bandeira soviética! Manteve-se firme em sua posição, a despeito dos protestos dos médicos e das enfermeiras e dos conselhos da mãe. Revolucionário. Sempre. Dois dias depois, já sem forças, não resistiu. Não abriu mais os olhos. Morreu rebelde.

Respondendo o meme: A letra

Setembro 2, 2008

Olá a todos! Já há algum tempo (um bom tempo), fui convidado pelo amigo Teo a responder a um meme (não precisarei explicar novamente o que isso siginifica, certo) no qual se deve mostrar a própria letra  (não se importando com eventuais conseqüências e reações dos [ghost] readers). O convite foi feito aqui: http://bichoderondonia.com/2008/04/04/meme-assustadora-letra/  (observem a data do post e aproveitem, inclusive, pra ler os textos do blog), e aqui estou (finalmente) respondendo.

Bom, vamos lá. Se você tem problemas do coração ou síndrome do pânico, peço que pare por aqui. Não me responsabilizarei por possíveis ataques ou coisa do gênero. Se você é forte e corajoso, prossiga.

A letra

Desde que me conheço por gente (sim, eu também gosto de expressões supostamente lugar-comum), ouço (reclamações) comentários sobre minha letra. Esses comentários tiveram tanto efeito que a letra piorou com o passar dos anos, tornando-se cada vez menor (o fato de eu ter ficado cada vez mais míope pode ser apenas mera coincidência), como, aliás, vocês deverão constatar logo a seguir. Antes de (aterrorizá-los) mostrá-los de uma vez, lembro que sou mesmo canhoto, tenho certeza de que não estou escrevendo com a mão “errada”. E para mim não é necessário que os outros entendem meus (rabiscos) textos; desde que eu entenda, já é o suficiente. Boa (meia) semana a todos!

P.s.: O que se encontra na imagem abaixo, embora não pareça, é um trecho de um conto que escrevi (e rabisquei muito, pra variar). Se alguém conseguir decifrar… (pra ver a imagem maior, ponha o mouse sobre ela e clique na janelinha que irá aparecer)

A letra

A letra

Hallo, ghost readers! Mais uma breve (mais breve que anteriormente) ausência, mas finalmente retorno a essa bagunça (ou blog, como queiram).

Hoje posto mais um conto, na verdade outra short short story (mas nem por isso menos short story), tratando de um tema polêmico. Aliás, que me perdoem os veneradores do sagrado macaco, sejam do etéreo ancestral (comum) ou do contemporâneo chimpanzé que dança, pula e faz peraltices no circo. Vale lembrar que, apesar do que possa parecer a princípio, o texto abaixo não tem qualquer referência pejorativa a “nossos” “parentes”. Uma boa semana a todos, símios ou não!

Darwin e seu espelho

Darwin e seu espelho

A origem da Origem das espécies

Certo dia, Darwin olhou-se no espelho, e ao constatar suas feições simiescas, esperto que era, resolveu propor a idéia de que todo ser humano tem ancestrais símios. Assim, ninguém mais poderia acusá-lo de ser o fruto do casamento de um gorila com uma orangotanga.